
Numa cidadezinha litorânea no interior do Japão, Koume Sato, uma estudante do Ensino Fundamental II, é forçada a fazer sexo oral no primeiro encontro que tem com Misaki, um garoto mais velho por quem era apaixonada. Depois do acontecido, Koume pede que seu colega de escola Keisuke Isobe, um menino que se declarou pra ela no primeiro ano do Fundamental II, tire sua virgindade. Desse dia em diante, Koume e Isobe começam uma relação de sexo casual.

Inio Asano. | Foto: Reprodução
O cenário descrito acima é o pontapé inicial do mangá Garota à Beira-Mar de Inio Asano. Publicado no Brasil pela editora JBC no ano passado, a obra foi seriada no Japão de 2009 a 2013 na revista Manga Erotics F e compilada em dois volumes tankobon sob o título original Umibe no Onnanoko — a edição brasileira reúne os vinte capítulos em um único volume. Em 2021 a obra ainda recebeu uma adaptação cinematográfica, dirigida por Atsushi Ueda.
Inio Asano não é um nome desconhecido no cenário dos mangás, sendo famoso por obras como Nijigahara Holograph (2003-2005), Boa Noite Punpun (2007-2013) e Solanin (2005-2006), os dois primeiros tendo sido publicados no Brasil também pela JBC e o último pela L&PM Editores. Asano é conhecido por abordar o lado marginal da sociedade e temas sensíveis, de modo que, só pelo início de Garota à Beira-Mar, dá pra saber que não se trata de uma história confortável.
Foto: Rafael Brito/JBox
O primeiro ponto interessante do mangá é o fato de Koume e Isobe usam o sexo como uma tentativa de preencher o vazio e lidar com as emoções que sentem; ao mesmo tempo, a relação deles em um dado momento se torna também uma experimentação do sexo por parte dos dois adolescentes, de modo que a relação casual deles é envolta por essas duas questões e não dá para dizer que se trata só de uma via de escape, nem só de dois adolescentes transando porque desejam experimentar o sexo.
Outro ponto é que quando a Koume pede para Isobe tirar sua virgindade, a atitude é provavelmente um modo dela tentar processar, e talvez até mesmo se livrar, do trauma do abuso. É muito fácil cair numa ideia de que a Koume é apenas uma manipuladora que usa Isobe e descartar o fato de que essa menina foi estuprada. Ela foi vítima de abuso sexual e é impensável não considerar que foi esse o evento que a direcionou para essa relação de sexo casual em que ela se encontra agora. Inclusive, chega a ser até meio decepcionante como a própria narrativa de Asano ensaia levar essa questão mais a sério e até torna a colocar a Koume para sair com o Misaki em um dado momento — e aí ela percebe que não quer ficar com ele e que ele é um grande babaca —, mas a real importância de um evento como esse parece se perder no desenrolar da história. De certa maneira, as questões do Isobe acabam sendo colocadas como muito traumáticas, enquanto o abuso que Koume sofre é colocado como algo que é negativo, obviamente, mas não vale muita reflexão por parte da personagem.
Foto: Rafael Brito/JBox
Koume é uma garota que está sempre procurando por algo. A família dela parece até que bem normal, embora às vezes seus pais briguem, deixando um clima ruim na casa. Ainda assim, essa busca da personagem por algo que ela mesma parece não saber o que é aparentemente tem mais relação com um vazio que sente internamente e menos com algum trauma familiar. É por sentir esse vazio, essa necessidade de preenchimento, que ela se aproxima logo do Isobe. De certo modo, Koume se aproveita um pouco dele dizer gostar dela, mas ele também não é um menino super bonzinho e gentil o tempo todo.
Isobe, por outro lado, está imerso numa família disfuncional. No início o leitor não sabe muito bem o que tem de errado naquela dinâmica familiar, nem qual o trauma de Isobe, porém é muito visível que aquele menino vive sozinho o tempo todo e que alguma coisa aconteceu no passado, e ele não consegue se livrar disso. Isobe é bastante solitário, mesmo na escola, e no começo da história acaba se achando muito bonzinho em relação à Koume. De uma certa forma, ele se deixa ser usado pela Koume, mas na verdade também se beneficia dessa relação porque o sexo para o Isobe é também uma forma de preencher o próprio vazio e calar, ao menos momentaneamente, o trauma e as vozes que têm dentro dele.
Foto: Rafael Brito/JBox
A relação dos dois é obviamente um tanto tóxica. No primeiro dia, Isobe age de forma mais teoricamente gentil, mas depois fica bravo porque se sente usado — e isso até seria compreensível se depois Isobe não caísse cada vez mais num comportamento grosseiro para com a Koume. Ele está sempre aceitando transar com ela, pedindo para beijá-la, perguntando se Koume nunca vai gostar dele, e então é grosseiro e trata a menina meio mal. Enquanto isso, Koume continua indo na casa desse garoto sabendo que ele gosta dela, negando toda vez a mínima possibilidade de gostar dele um dia, mas continuando a manter essa relação e às vezes falando umas palavras ruins.
Isobe e Koume acabam sendo mutuamente tóxicos um com o outro, porque eles conseguem jogar um no outro a raiva e o vazio que sentem; então, eles ficam nessa relação onde o sexo é uma tentativa de preenchimento, mas também uma forma de experimentação. Por esse motivo, a relação entre os dois é desconfortável de acompanhar às vezes.
A representação visual das cenas de sexo é bem gráfica; tem desenho de genitália, de calcinha, de cueca, de penetração… não falta desenho, não tem como ter dúvidas do que está acontecendo em cada cena, porque é bem visual. No início do mangá tem uns quadros de calcinha que normalmente seguem o olhar do Isobe encarando o corpo da Koume e isso soa um tanto questionável. No entanto, conforme a história vai andando, acaba tendo vários quadros semelhantes do Isobe também, então a questão parece ser mais de que o autor queria ser bem descritivo visualmente.
Foto: Rafael Brito/JBox
Ainda nessa parte sexual, as personagens vão falar muito abertamente da questão e aparecem alguns fetiches escatológicos. Ou seja, o sexo é tratado de uma forma explícita e num limiar que fica entre essas cenas terem a intenção de despertar ao menos um pouco de tesão no leitor e a intencionalidade de só desenhar uma cena de sexo crua. Algo entre o erótico e uma descrição visual detalhista, mas naturalizada.
No geral, Garota à Beira-Mar tem uma premissa interessante de explorar parte da vida desses dois adolescentes que estão à procura de um sentido pra vida e um caminho que deveriam seguir, ao mesmo tempo que aborda famílias disfuncionais, bullying e o fato de que uma cidade pequena pode parecer ser acolhedora, sem ser necessariamente assim.
O mangá apresenta uma visão mais crua sobre a adolescência, mostrando algumas nuances mais “obscuras” dessa fase da vida humana sem transformar tudo numa dicotomia bem x mal, mas permitindo que se veja algumas nuances nas atitudes de algumas das personagens.
Por outro lado, a obra falha um pouco na condução da protagonista feminina; enquanto a jornada de Isobe torna-o um personagem mais complexo e faz com que os leitores possam compreendê-lo melhor e até criar um certo apego, o drama da Koume parece meio “pequeno” comparado às questões dele, uma vez que a narrativa não se preocupa em explorar a questão do abuso sexual do início da história. Ela o transforma num fato que aconteceu, mas dando a ele uma importância menor no todo narrativo do que uma questão como essa poderia e deveria ter numa história com a ambientação e os temas de Garota à Beira Mar.
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Essa resenha foi feita com base na edição cedida como material de divulgação para a imprensa pela editora JBC.
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