Crítica | Kokuho – O Preço da Perfeição

Crítica | Kokuho – O Preço da Perfeição

Quando vi o título de Kokuho, a primeira coisa a passar pela minha mente seria de que o título fazia alusão ao protagonista da história. Não me culpem, como muitos o meu conhecimento da língua nipônica é baixíssimo. Mas ao ver o filme, descobri não apenas que estava enganado, mas que havia todo um conceito maior por trás.

O Governo Japonês criou, ainda no Século XIX, a categoria de Tesouro Nacional, ou kokuho. Este título é concedido às maiores obras de arte produzidas no país ou, em alguns casos, para o artista que melhor domina sua técnica, que o carrega por toda vida.

A trama de Kokuho – O Preço da Perfeição gira em torno de Kikuo Tachibana, o filho de um líder da máfia japonesa. Mesmo sendo herdeiro de um mafioso, ele ganha notoriedade pela sua atuação como onnagata (que explicaremos um pouco mais abaixo) no teatro kabuki. E assim chama atenção do lendário ator Hanai Hanjiro, que o adota após o assassinato de seu pai. É morando com ele que Kikuo passa a treinar para ser ator profissional, junto com o seu filho Shunsuke, com quem estreita amizades.

imagem: cena do filme Kokuho

Imagem: Divulgação/Sato Company/Imovision

Kokuho é um épico, tanto por sua ambição, quanto por sua duração. Muitos achariam difícil encarar um filme de 3 horas de duração, mas a verdade é que nem dá para sentir o tempo passar. O diretor nipo-coreano Lee Sang-il soube empregar um ritmo que entende o momento de ser acelerado e quando precisa de um respiro para o espectador. E isso porque o filme seria ainda maior.

Vale lembrar que o longa é baseado no livro homônimo de Shuichi Yoshida; um calhamaço de 800 páginas publicado em 2018. O próprio diretor afirmou que precisou fazer alguns cortes para o longa no cinema, que já somava 4h30 de duração.

Ryo Yoshizawa demonstra porque é um dos novos grandes nomes do cinema japonês. O ator, que pode ser lembrado pelos live-actions de Tokyo Revengers e por ter sido o Kamen Rider Meteor em Kamen Rider Fourze, interpreta um protagonista voltado para bem menos ação.

Imagem: Divulgação/Sato Company/Imovision

Aqui ele se transforma em dois personagens completamente distintos. O ator que sacrifica tudo que existe de mais precioso em busca do sonho, muitas vezes sem demonstrar um pingo de remorso. Uma carga dramática singular que não cai no clichê das atuações caricatas, como muitos acabam parando.

Mas é no palco que ele brilha. Muda para uma figura feminina capaz de enganar o espectador mais desatento, que poderia acreditar se tratar de uma personagem diferente. Se Michael B. Jordan (Pecadores) ganha um reconhecimento por fazer irmãos gêmeos, Yoshizawa também merecia estar no mesmo patamar, se não um pouco acima, por este que pode ser o melhor trabalho em sua carreira.

Isso de nada adiantaria se não houvesse um bom elenco de apoio. Seu amigo e rival Shuichi ganha vida através de Ryusei Yokohama, outro bem lembrado por seu papel em tokusatsu como Hikari Nomomura em Ressha Sentai ToQger. Aqui, ele interpreta o amigo que se vê traído pelo sucesso de Kikuo e a ameaça de perder seu posto como sucessor do pai.

Imagem: Divulgação/Sato Company/Imovision

Ah, e o pai. O que falar de Ken Watanabe? O ator, que já foi indicado ao Oscar (O Último Samurai), dispensa apresentações e aqui mostra mais uma vez o porquê de ter o reconhecimento internacional. Ele sai de uma figura paternal amorosa para um professor autoritário sem nem piscar. Com o passar do longa, vemos mais facetas de um ator que também tem suas ambições, mesmo já tendo uma idade avançada.

As peças são um espetáculo à parte. Para quem nunca viu ou sabe qualquer coisa sobre o teatro kabuki, é uma excelente porta de entrada. O estilo de teatro, criado ainda no Século XV, ficou marcado por permitir apenas que homens atuassem. Isto foi feito pois, na época, o governo nipônico acreditava que o teatro seria uma atividade imprópria para as mulheres. Por isso, foi criado o papel de onnagata, onde homens teriam que interpretar os papéis femininos. Para isso, cabia a eles estudarem o comportamento, vestimenta e modo de falar femininos da época. E quanto mais próximo de uma mulher, melhor seria o ator.

E Yoshizawa e Yokohama mostram como este trabalho realmente é árduo. Quando se transformam nas donzelas das peças, quase esquecemos que são eles ali por um momento. Tudo fruto de um intenso treinamento que durou mais de um ano para o filme. Um feito surpreendente se lembrarmos, como vemos no longa, que esses atores treinam por toda sua vida.

Imagem: Divulgação/Sato Company/Imovision

Se há algo que fica faltando em Kokuho, é a trilha sonora. Não há um momento em que a trilha de fato se destaque ou seja lembrada posteriormente. Mas se o filme peca nisso, acaba convencendo com sua produção histórica, mostrando um Japão que evolui avançando por quase quatro décadas.

Mas antes de terminarmos, precisamos falar do ponto que colocou Kokuho no mapa cinéfilo no início deste ano: sua indicação ao Oscar na categoria de Maquiagem e Penteado. E aqui ela se divide em duas. A primeira é a maquiagem do dia a dia, vista em tatuagens das máfias, nas maquiagens femininas e, principalmente, no envelhecimento gradual dos personagens com o passar dos anos.

A segunda, onde se destaca, é a do teatro. As peças de kabuki são fortemente influenciadas por ela, ainda mais pelo fato de homens terem que passar a ideia de serem mulheres, devido à proibição da época e que se tornou característico. E isso nos faz, junto com a atuação apontada anteriormente, comprar a ideia de que são pessoas completamente diferentes no palco.

Kokuho – O Preço da Perfeição, se tornou a maior bilheteria japonesa em 2025, batendo Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba – Castelo Infinito em sua própria casa. Se tornou a maior bilheteria de um filme live-action na história do arquipélago. E nada disso é por acaso. Os japoneses entenderam que ele é mais do que um filme querendo “pagar de cult”. Até porque em nenhum momento ele faz isso. É uma produção que mostra parte da cultura japonesa de uma forma que muitas vezes não vimos.

Não importa qual motivo você encontre para assistir Kokuho. Seja por amar o cinema e a cultura japonesa, por querer maratonar todos os filme do Oscar ou por apenas curiosidade. Kokuho é uma obra que abraça qualquer que esteja disposto a encará-lo.

Kokuho – O Preço da Perfeição entrou em cartaz nos cinemas brasileiros em 5 de março. Confira a programação de sua cidade. O JBox foi convidado ao evento de pré-estreia do filme no Rio de Janeiro — veja mais na matéria com Nelson Sato, representante da distribuidora Sato Company.


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