
Um negócio legal do mundo dos mangás, animês e etc. é que parece que qualquer coisa mais corriqueira, nas mãos de bons roteiristas, pode se converter em uma narrativa de ação entusiasmante. Clubes de quiz, de animação ou jogos de cartas podem ser tão emocionantes quanto ninjas lutando, guerreiros enfrentando espíritos ou esquadrões derrotando monstros gigantes.
O caso mais recente nesse estilo é o de Akane-banashi, que pega uma arte tradicional lá do Japão e converte numa aventura quase mágica em sua retratação. Essa arte é o rakugo, um tipo de performance onde alguém (um rakugoka) conta histórias cômicas para uma plateia sentado em uma almofada, utilizando apenas sua voz, gestos, expressões faciais, um leque e um tecido. Não é teatro, embora pareça. Também não é stand-up comedy, embora pareça. É rakugo, com suas tradições, regras e maneirismos próprios.
Na trama, uma menininha chamada Akane é filha de um rakugoka que está tentando subir de categoria profissional. Para isso, o cara precisa apresentar seu rakugo para avaliação de grandes mestres em um evento. Contudo, o mais temido entre esses grandes mestres não só reprova a apresentação do pai de Akane, como decide banir ele do mundo do rakugo profissional sem dar qualquer explicação.
Os anos passam. Akane, agora prestes a se formar no Ensino Médio, foi acolhida pelo antigo mestre de rakugo do seu pai, que a treinou durante todo esse tempo. Akane agora será acolhida oficialmente como aprendiz e está dando seus primeiros passos dentro desse universo. Ela conhece outros rakugokas da cena local, se depara com potenciais rivais, entende como alguns pauzinhos são mexidos nos bastidores e tem a oportunidade de confrontar o grande mestre que baniu seu pai caso ela vença uma competição amadora.

Imagem: Zexcs/Reprodução
O grande ponto é que Akane-banashi se apropria de vários clichês narrativos presentes em animês de aventura e ação para dentro de uma temática que, teoricamente, passa longe disso. E isso dá um gás, um vigor na coisa toda que é impossível terminar um episódio sem querer conhecer mais sobre esse universo. As apresentações de rakugo são retratadas quase como rituais de invocação, como se os rakugokas estivessem manifestando poderes e hipnotizando aqueles que os estão assistindo.
As sequências de treinamento da Akane, com suas interações com mestres e veteranos, colam como se fossem sequências de treinamento de guerreiros aperfeiçoando novas técnicas. Rakugokas de outros lugares são apresentados e desenvolvidos como se fossem adversários, rivais ou inimigos mesmo, com presenças intimidadoras e visuais mais elaborados que o geral.
E há todo um ar cerimonial de importância e mistério envolvendo os grandes mestres de rakugo, como se fossem membros de uma organização secreta que comanda os caminhos políticos globais em vez de profissionais mais velhos de um estilo de arte tradicional bastante específica. É bem impressionante.
Para além disso, há uma discussão bem interessante sobre atualização e manutenção da arte que o animê levanta em certo ponto. Não sei como está aqui desse lado da tela, mas no universo da trama o rakugo é retratado como um tipo de arte tradicional que já não chama mais tanto a atenção do público, principalmente dos mais jovens. É um nicho cada vez menor.
Imagem: Zexcs/Reprodução
Durante um concurso para rakugokas amadores que a Akane participa, há outros dois concorrentes bem fortes: um rapaz que atualiza histórias clássicas com pontos do cotidiano e leva suas performances mais para um lado humorístico, hibridizando com stand-up comedy, e uma jovem seiyuu que, por ser atriz de voz, adiciona uma dramaticidade teatral à maneira como interpreta as histórias apresentadas.
Os dois conquistam a plateia com suas apresentações “transgressoras” do que é o rakugo e são colocados como os favoritos ao prêmio. Contudo, ao fim, Akane se apresenta mantendo-se fiel ao estilo mais tradicional do rakugo, vencendo os outros e sendo aclamada por aquele mesmo mestre que baniu seu pai anos antes como alguém que nem deveria estar ali competindo entre amadores, pois já tem nível para ser profissional.
Pois ocorre que aquele mestre, tão temido, tem um pensamento conservador do que o rakugo deve ser. A questão é: qual o motivo de as pessoas hoje em dia não se importarem mais tanto com esse estilo de arte tradicional? Se é porque ele já é defasado e não conversa mais com essa geração, então é necessário adicionar nele outros elementos artísticos mais atuais, como o stand-up e o teatro? Ou é porque não há, atualmente, rakugokas que consigam impressionar se mantendo fiéis aos preceitos mais clássicos de tal arte?
Dá para esticar essa conversa para outros meios artísticos. Até quanto é possível adicionar de elementos novos em determinada arte sem descaracterizá-la? Ser artisticamente conservador é bobagem ou um esforço em manter e divulgar tais artes tradicionais como elas são? Não sei se há resposta certa para essas questões, mas Akane-banashi ao menos parece interessado em tencionar essas perguntas.
Akane-banashi é um animê do estúdio Zexcs, dirigido por Ayumu Watanabe (que esteve no ar nessa temporada também com Witch Hat Atelier). A primeira temporada está disponível na Netflix, com opções de legenda e dublagem em português, e no YouTube, apenas no áudio original com legendas em português. Ele adapta o mangá de mesmo nome escrito por Yuki Seunaga e ilustrado por Takamasa Moue, em andamento desde 2022 na revista Weekly Shonen Jump, já com 22 volumes. Aqui no Brasil, ele é publicado pela editora JBC.
O texto presente é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.
Siga e acompanhe as notícias do JBox também pelo Google News e em nosso grupo no Telegram.
from JBox https://ift.tt/vtDn7K5
via CineLive365
Post a Comment