Crítica | Rooster Fighter | 1ª temporada

Crítica | Rooster Fighter | 1ª temporada

Gosto muito de obras que se apropriam de características bem específicas de determinadas mídias e as extrapolam, exagerando e esticando seus clichês até o limite do ridículo. Melhor ainda quando elas sustentam isso com uma sobriedade inabalável dentro do universo fictício apresentado. Não à toa, JoJo’s Bizarre Adventure é um dos meus animês prediletos. As batidas das aventuras shounen de antigamente estão todas lá, mas a execução é tão deliciosamente hiperbólica e teatral que todos os envolvidos parecem estar querendo tirar uma com a cara do espectador.

Nesse mesmo tom, foi lançado na última Temporada de Primavera a animação Rooster Fighter, cuja sinopse certamente deixaria qualquer um que não está acostumado com o mundo otaku com uma sobrancelha erguida. Na trama, um galo com superpoderes chamado Keiji enfrenta criaturas gigantescas conhecidas como kiju. Sim, a premissa é literal: acompanhamos um galináceo que cisca pelo cenário enquanto distribui golpes em monstros colossais, sem jamais perder sua postura “Le Samourai” de herói solitário e implacável.

Ao longo da jornada, outras figuras se unem a Keiji. Temos Piyoko, uma pintinha apaixonada que curiosamente nunca envelhece; Elizabeth, uma galinha guerreira aristocrata, criada como herdeira por um humano capaz de compreender o dialeto das aves (hahaha); Keisuke, o meio-irmão mais novo de Keiji, fruto das ciscadas do pai de ambos por diferentes galinheiros; e Morio, um kiju que nutre uma inesperada simpatia pela humanidade.

Imagem do animê Rooster Fighter, com três galos e uma pintinha.

Imagem: Reprodução/Sanzigen/Viz/Adult Swim

A história segue esse bando peregrinando pelo Japão e enfrentando diferentes kiju, cujas habilidades costumam setar o tom dos episódios (mais para ação, mais para o humor, mais para o horror, etc.). Parece uma idiotice. E é mesmo uma idiotice. Mas assim como em JoJo, há tanto empenho técnico, esmero estético e “coração” nesse exagero que a coisa toda faz a volta e se torna séria. É um paradoxo hilário, pois o animê é bolado com extrema seriedade em sua execução interna, mas tem total autoconsciência de sua galhofa.

Por exemplo, tem um arco melodramático que envolve a dinâmica familiar entre Keiji e Keisuke. O roteiro apela para flashbacks densos e de forte carga dramática, onde o pai negligente abandona a mãe de Keiji enquanto ela chocava o ovo de sua irmã, e isso resulta na morte da galinha-mãe, definhada pelo desgosto do abandono.

E a relação entre o Keisuke e o velho não foi tão melhor. Ele lhe impôs sua missão de enfrentar os monstrengos quando Keisuke ainda era um jovem galeto, responsabilidade que ele ainda não tinha maturidade o suficiente para comportar. Todo esse melodrama familiar poderia ser o negócio mais tenso do mundo, mas é interpretado por galos. Então, fica num limiar entre “o que estou assistindo?” com “esse treco é realmente emocionante” que é irresistível.

Imagem: Reprodução/Sanzigen/Viz/Adult Swim

Esteticamente, o animê é uma delícia. As sequências de ação são deslumbrantes e extremamente bem elaboradas, o que cria uma outra dissonância na cabeça, já que as cenas mais cotidianas são animadas com certa simplicidade.

Para além desse espetáculo visual das lutas e da galhofa autoconsciente, Rooster Fighter explora discussões sociais, como o preconceito pela aparência. Em dado momento, são introduzidos kiju pacíficos, que questionam sua própria existência e tentam coexistir harmonicamente com a humanidade. Contudo, eles são inicialmente marginalizados e caçados puramente por sua aparência grotesca, independentemente de suas boas intenções.

Além disso, rola um uso divertido do erotismo, que achei até transgressor para os padrões higienizados da indústria pop atual. Pra mim, o ápice dessa abordagem ocorre quando uma “segunda personalidade” tenta tomar o controle do corpo de Keiji no momento em que o protagonista entra no cio, ao estilo “O Médico e o Monstro”, transformando o instinto animal primitivo em uma batalha psicológica.

Rooster Fighter é a prova de que nenhuma premissa é ridícula demais quando os realizadores têm coragem de abraçar ela por inteiro. É o triunfo da paródia, da palhaçada bem feita, do piadista que leva a sério fazer a piada, mas não a ele mesmo. Grande animê, galera.


Disponível com opção dublada no Disney+, o animê de Rooster Fighter é feito pelo estúdio Sanzigen, sob produção da Viz Media para o selo Adult Swim — sendo transmitido também pelo canal pago hmônimo.

O mangá é publicado aqui no Brasil pela editora Panini e saiu recentemente uma sobrecapa variante para a sua décima edição exclusiva homenageando a Seleção Brasileira, que perdeu de forma humilhante para a Noruega. Eu culpo o Neymar.


O texto presente é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox. 


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