
É possível dizer que desde o início do gênero mecha os robôs gigantes servem como alegorias para as engrenagens desumanizadoras do militarismo. Lá mais ou menos na gênese, com Mazinger Z, do Go Nagai, o domínio da máquina se misturava com a escolha moral de um jovem entre fazer o bem e se tornar um “deus” ou o mal e se tornar um “demônio”.
As reinterpretações e desconstruções posteriores feitas por Yoshiyuki Tomino em Mobile Suit Gundam e por Hideaki Anno em Neon Genesis Evangelion consolidaram: nesse universo mecânico, os cockpits funcionam como moedores das infâncias de seus pilotos. É mais do que robôs gigantes brigando. Em muitos casos, são parábolas de como a guerra e a necessidade de se armar tendem a retirar a humanidade de crianças.
É nessa tradição trágica da ficção científica japonesa que Snowball Earth se ancora. O animê, que foi ao ar na mais recente Temporada de Primavera, resgata o tropo clássico do jovem piloto que é sacrificado pelo bem maior, só que sob uma perspectiva de isolamento que leva à distorção psicológica do protagonista.
A trama segue o extremamente tímido Tetsuo, filho do cientista que criou um robô chamado Yukio. Quando a Terra é atacada por monstrengos alienígenas gigantes, o moleque, não querendo que o pai sacrifique o mecha como uma bomba para parar os kaijuu, decide pilotá-lo e enfrentar as ameaças. Ocorre que Tetsuo é extremamente talentoso nisso, de modo que todo o maquinário responsável por enfrentar os novos inimigos passa a ser montado ao seu redor.

Imagem: Studio Kai/Reprodução
Tetsuo e Yukio então passam uma década inteira no espaço sideral na vanguarda de um ataque que é esperado. Só que o preço desse heroísmo é cobrado, com o rapaz sofrendo um esfacelamento social crônico. Enquanto Amuro Ray, em Gundam, e Shinji, em Evangelion, sofriam o trauma do combate em tempo real, mas cercados por adultos (negligentes, mas adultos), Tetsuo se priva de contatos humanos diretos durante seus anos formativos.
O único com quem ele consegue conversar naturalmente é o próprio robô Yukio, uma inteligência artificial, que basicamente não lhe traz conflitos sérios de interação. É como se ele se colocasse em um casulo, no qual se refugia para suportar o horror de ser uma criança-soldada. E o que resulta disso é uma profunda inadequação social.
Mas enfim a tal grande batalha final tão aguardada chega, com o espaço ao redor da Terra sendo invadido por milhares daqueles kaijuu, uma quantidade muito maior do que aquele exército poderia comportar. Tetsuo e Yukio são os únicos que sobram no confronto e a única chance de vencerem é se, tal como no plano inicial do pai de Tetsuo anos atrás, Yukio for usado como uma bomba. O robô desacopla o piloto em uma cápsula de fuga para a Terra e se autodestrói, supostamente encerrando a guerra. No entanto, quando Tetsuo desembarca lá embaixo, ele descobre que o planeta entrou em uma nova era do gelo e a civilização humana está à beira da extinção.
A partir disso, o animê cria uma rima temática entre o quão hostil é o mundo exterior à cápsula de onde Tetsuo saiu (congelado, quase inabitado, com monstros prestes a te devorar) e o estado psicológico do jovem (desnorteado, sem ninguém para se apoiar, fora de qualquer zona de conforto). Dá pra dizer que ele é tipo um Peter Pan naquele ambiente. Ele nunca “cresceu”, ficou congelado no tempo tal como a Terra está agora.
Imagem: Studio Kai/Reprodução
O que vemos daí em diante é o Tetsuo “crescendo”, “descongelando” conforme precisa lidar com os sobreviventes na Terra e as regras que passam por aquela nova sociedade. Agora, ele já não é mais uma criança-soldada, uma arma que perdeu sua infância para a guerra. Ele precisa construir laços de amizade, camaradagem, familiares. As habilidades que ele tem como piloto não são mais uma prisão, sim um meio de mostrar seu valor por ali. É a chance de Tetsuo se humanizar.
E aquele cenário de gelo, tão apocalíptico, pode ser resignificado. Em vez de uma representação do fim dos tempos, serve então como uma tela em branco para o recomeço otimista desse protagonista. E esse recomeço nem precisa ser tortuoso e sozinho, já que Yukio, antes de se explodir, conseguiu mandar um backup de sua memória para a cápsula por onde ejetou o piloto.
Isso tudo com personagens muito bacanas, batalhas legais de assistir, cenários deslumbrantes e uma animação que mistura elementos em 2D e 3D bem bonita aos olhos. Snowball Earth conquista como um produto pop por si só, mas com aquele verniz mais elegante no subtexto que destaca o animê em meio a tantas outras produções da temporada.
O motor do gênero mecha está lá. E o que é entregue a partir dele é muito bom.
Snowball Earth tem 13 episódios. O animê foi produzido pelo Studio Kai, exibido por aqui pela Crunchyroll e pela Disney+. A direção é de Munehisa Sakai (o de Dance Dance Danseur) e o roteiro é de Shigeru Murakoshi. Ele adapta um mangá de mesmo nome escrito por Yuhiro Tsujitsugu, lançado desde 2021 na Monthly Big Comic Spirits, da editora Shogakukan, até então com 11 volumes e inédito aqui no Brasil.
O texto presente é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.
Siga e acompanhe as notícias do JBox também pelo Google News e em nosso grupo no Telegram.
from JBox https://ift.tt/fuSqb0k
via CineLive365
Post a Comment