
Fundada em julho de 1986, a VIZ Media completou 40 anos de operação, sempre focando na publicação de mangás em inglês, e na distribuição e licenciamento de animês para diversos mercados.
Ao longo de quatro décadas, a empresa acompanhou mudanças profundas neste cenário, desde quando os animês eram lançados em VHS e DVDs, até a exibição atual em diversas plataformas de streaming, incluindo algumas gratuitas.
A convite da Angelotti Licensing, parceira da VIZ Media no Brasil, o JBox teve a oportunidade de visitar a LicensingCon Latam 2026 e entrevistar Laura Takaragawa, vice-presidente de CPG (Consumer Packaged Goods) Licensing & Promotions. Para ela, uma das grandes mudanças atuais é que se tornou legal dizer que é fã de animê:
“Pessoas como Megan Thee Stallion, Michael B. Jordan, influenciadores conhecidos mundialmente, como MrBeast, estão falando abertamente sobre o quanto amam os animês. Se tornou algo legal. Temos esses artistas de hip-hop falando sobre isso, atletas falando sobre o que os animês significam para eles, como Messi, que é um grande fã de Captain Tsubasa. Todos estão falando sobre como os animês os inspiraram.”
Durante a conversa, a executiva explicou que o Brasil é um paÃs importante na tomada de decisão sobre novos produtos e campanhas, e também prometeu grandes novidades para os fãs de Naruto nos próximos meses, aproveitando o aniversário de 25 anos do animê em 2027.

Laura Takaragawa durante a LicensingCon Latam 2026 | Gusta Almeida/Angelotti Licensing
Confira a entrevista abaixo, que contou ainda com a participação de Luiz Angelotti, CEO da Angelotti Licensing & Entertainment Business.
JBox: Como vocês medem/decidem quais marcas ou franquias devem ser exploradas em um paÃs? Afinal, vocês trabalham em várias regiões diferentes. Então como isso é decidido, e como são as estratégias locais para cada marca?
Laura: Quando olhamos para a VIZ, fomos inicialmente uma empresa focada em mangás, então grande parte do nosso trabalho é focado em publicação, especialmente em inglês. Nós também somos propriedade de duas grandes editoras japonesas, a Shueisha e a Shogakukan. E é exatamente por isso que eles criaram a VIZ. Para que pudéssemos trazer mais histórias. Publicamos centenas de tÃtulos de mangás, e nem todos se tornam animês, apenas os maiores. Então observamos algumas coisas, como as vendas de mangás, até mesmo o desempenho dos capÃtulos semanais, com a versão norte-americana da Shonen Jump e o Manga PLUS. A partir deles, somos capazes de ver quais destes tÃtulos estão realmente engajando com os nossos fãs. É incrÃvel que podemos observar isso semanalmente, sabe? Algo como ‘nossa, esse está em alta’. Conseguimos dizer, somente com o mangá, quais são as maiores oportunidades para a adaptação em animê.
Temos esse tipo de informação, porque o material-base é o mangá, e também temos guias da Shueisha e Shogakukan. Outro ponto é nossa equipe focada em produtos. Só porque algo é popular no mangá, não quer dizer que vai ser sucesso também em termos de vendas. Alguns tÃtulos se tornam o merchandising perfeito, como Naruto. Existem tantos personagens e elementos nessa franquia, com grandes sÃmbolos, como o da Akatsuki, que se tornou quase tão identificável quanto o rosto do Naruto em si. Então algumas coisas só ‘pegam’. E não consigo explicar o motivo, mas Naruto é mais popular fora do Japão do que no próprio paÃs. É o animê mais reconhecÃvel em todo o mundo, especialmente fora do Japão. Por algum motivo, essa história ressoou [com o público].
Então, quando olhamos para os tÃtulos, buscamos por coisas únicas, histórias que emocionem e se conectem com as pessoas. Esses são os nossos passos. Estamos na indústria [há bastante tempo], trabalhando para várias empresas diferentes, com a equipe de produtos de consumo da VIZ. Isso quer dizer que temos uma mistura entre especialistas em animês e mangás, e especialistas em produtos, que trabalham para varejistas, ou empresas como Disney e Netflix, e eles trazem os insights de ‘esse será o próximo grande animê’. Mas precisa ter todos os elementos corretos.
Na maior parte do tempo, olhamos para todos os mercados, incluindo Américas. Olho bastante para Estados Unidos e Brasil, são os meus territórios-chave. Existem alguns tÃtulos que funcionam especialmente no Brasil, como Captain Tsubasa, que tem uma grande história. Outro é Rooster Fighter. Não sei se vocês conhecem, mas chegou aqui pelo Disney+, e dizem que é o maior animê da plataforma, na América Latina. O que é incrÃvel, embora eu saiba que o Disney+ ainda está começando. Vemos isso como uma grande oportunidade de construir algo especificamente no Brasil, por exemplo. E é hilário, de uma forma muito especÃfica.
Dan Da Dan é outra obra que, quando vimos pela primeira vez, já percebemos que havia ali muitos elementos importantes. É moderno, é diferente, usa muito bem o humor, tem grandes personagens, como a Velha Turbo [ou Vovó Turbo, a depender da dublagem], que é engraçada, mas é tão desagradável, e as pessoas amam isso. É uma história que parece muito inédita. Às vezes você chora, às vezes você ri, e esse é exatamente o tipo de coisa que procuramos.
A mesma coisa acontece com Jojo’s Bizarre Adventure. Este é outro animê que os fãs são apaixonados, e tem um visual único. A franquia vai completar 40 anos em 2027, contando a partir do começo do mangá. E vai celebrar o aniversário de 15 anos do animê no próximo ano também. E vocês provavelmente conhecem Steel Ball Run, que está em alta no momento. Já foi anunciado que a próxima fase do animê estreia em 25 de setembro.
Acho que esse será um grande lançamento, já sabemos que faz sucesso nos EUA e no Brasil também. Demoramos algum tempo para desenvolver produtos, mas teremos itens oficiais em breve no Brasil. Jojo’s Bizarre Adventure é grande e possui os elementos [que buscamos], como personagens únicos, muito identificáveis. Você sabe ao olhar que aquele é um estilo de Jojo’s, e os fãs da franquia são muito criativos. As pessoas podem somente fazer uma pose e vai ser reconhecido. Nada é como Jojo’s. E também, por algum motivo, também atrai uma criatividade na parte de estilo e moda.
A volta de Steel Ball Run é um dos lançamentos mais aguardados do 2º semestre | Netflix/Divulgação
Crunchyroll e Netflix possuem animês, mas são plataformas de streaming em si. Já a VIZ licencia e distribui animês para essas plataformas. E às vezes as licenças são feitas para vários streamings, e outras focam apenas em um serviço. Como vocês decidem qual é o melhor caminho para cada IP (Propriedade intelectual)?
Laura: Às vezes a VIZ tem os direitos de distribuição, e à s vezes é o licenciado. Então nem sempre a decisão é nossa. Eu sou mais focada na parte de produtos de consumo, então não tenho detalhes sobre essas decisões, que ficam com a equipe focada em animação. Mas acredito que eles sempre buscam a melhor forma de distribuição, para alcançar um público cada vez maior. Como essas decisões ficam com eles, eu não participo, mas, para a minha área, sempre queremos ter a melhor distribuição possÃvel, com qualquer serviço que possa fornecer o melhor acesso. Porque isso, claro, ajuda a obra a ter mais sucesso.
Falando sobre a parte de licenças, quanta liberdade as licenciadoras locais têm quando estão criando produtos de cada IP?
Laura: Depende bastante. Novamente, essa decisão não é nossa [da VIZ]. Depende dos donos das histórias no Japão, e cada companhia é diferente. Algumas têm alguma flexibilidade. Usando Naruto como exemplo, trabalhamos com eles há mais de 20 anos, e por conta desse tempo de parceria e por tudo o que já fizemos, conseguimos chegar até eles com ideias muito diferentes. Algo como ‘queremos unir as Tartarugas Ninja com Naruto. Podemos fazer isso?’, e eles dizem ‘sim’. Isso é fruto de uma construção de relacionamento durante todo esse tempo. Fazemos coisas únicas e temos essa flexibilidade.
Então realmente depende bastante de cada caso, do que o licenciado se sente confortável de fazer com as marcas que possui. Mas acho que vocês vão começar a ver que estamos cada vez mais fazendo coisas inéditas.
Tem algo que várias pessoas falaram aqui no evento, sobre a demora no processo de aprovação das coisas, porque precisa ir para os EUA, e depois para o Japão. Em alguns casos os licenciantes conseguem ser mais rápidos, mas às vezes é mais lento.
Laura: Isso é verdade. Já trabalhei com licenciantes nos EUA e nós éramos donos das marcas, então só precisava de uma aprovação. Mas somos [VIZ] um agente, a Angelotti é um agente, então tem esse caminho de passar pelos agentes, pelos licenciados no Japão e depois voltar. Então eu diria que é um processo lento, realmente. Mas depende bastante de cada parceiro, que tem suas próprias regras para marcas. E também existem os comitês de decisão, então à s vezes vai para o licenciado e precisa passar pelos comitês. Demora mais do que um processo ‘normal’, mas fazemos isso pelos fãs, e queremos nos certificar de que estamos na direção certa em relação aos donos das IPs, para que seja um produto 100% autêntico. Mas sempre dizemos que vale a pena. Exatamente como a colaboração entre Vivienne Westwood e NANA, que levou 25 anos para acontecer, e valeu cada minuto.
No passado, muitos mangás e animês foram editados e sofreram alterações para se ‘adequar’ a diferentes públicos. Essa não é mais uma prática de mercado, mas existem ações que vocês tomam para adequar as marcas para um público especÃfico ou região?
Laura: Prefiro não falar em nome da equipe de mangás, porque não estou tão envolvida nas partes de mangás e animês.
Mas existe algo que vocês fazem para adequar as marcas ao público?
Laura: Sobre isso, é muito importante a figura do Luiz [Angelotti], porque ele nos diz, como especialista neste mercado, o que ele acha. Sempre compartilhamos o que estamos fazendo nos Estados Unidos, por exemplo, enquanto nossos parceiros do Japão compartilham o que está acontecendo ao redor do mundo. Então pensamos ‘isso seria muito legal para este mercado’. Mas cada local é diferente e cada tÃtulo funciona de forma diferente. Então algo que funciona para Naruto não necessariamente vai funcionar com One Punch-Man, não podemos tratar da mesma forma.
Tentamos o nosso melhor para entender os mercados, conversamos com fãs, vemos as redes sociais, e tentamos fazer o melhor e o que faz sentido para cada marca. ‘Por que estamos fazendo isso? Por que isso faz sentido para essa marca?’. Baseado em nossos conhecimentos, tentamos. Nem sempre funciona. Às vezes somos surpreendidos com algo que se torna mais forte do que pensamos, ou algo que não funciona conforme o planejado. Fazemos isso há muito tempo. Nem tudo será um sucesso, mas aprendemos muito ao longo do caminho.
Em uma marca como Naruto, em que temos duas décadas de lançamento de produtos, é mais desafiador criar algo novo, ou sempre existem novas ideias?
Laura: Não acho que seja mais difÃcil. Amei a pergunta, porque Naruto é uma marca que atingiu um nÃvel completamente novo, em relação a qualquer outro animê. É uma marca com a qual você pode fazer muitas coisas e acho que, talvez há cinco anos, o foco era totalmente em merchandising. Camisetas, colecionáveis, brinquedos, mas agora que Naruto se expandiu para além disso, nosso foco está agora em experiências.
E até para explicar a força do mercado brasileiro, nós lançamos a promoção de Naruto e Burger King primeiro no Brasil. E baseado no sucesso que tivemos aqui, lançamos uma campanha global. Nunca havÃamos feito isso antes, mas, com base nos resultados positivos aqui, vimos que ‘meu Deus, isso é incrÃvel’. Então, à s vezes, fazer um lançamento regional pode levar a algo ainda maior.
Luiz e eu gostamos de testar o mercado, mostrando primeiro o que acontece aqui no Brasil. Em breve vocês verão um restaurante de lámen do Naruto, será algo bem diferente. Teremos uma ‘Corrida Naruto’ também, e uma experiência imersiva no próximo ano. Então muita coisa vai acontecer no aniversário de 25 anos do animê de Naruto no próximo ano.
Você acha que houve uma grande mudança de público na América Latina nos últimos anos?
Laura: Acho que o que aconteceu na América Latina é semelhante ao que aconteceu no universo de animês em geral, especialmente durante a pandemia e a ‘guerra dos streamings’. Os animês estão em todos os lugares, na América Latina e Estados Unidos. E, uma vez que os conteúdos se tornaram mais disponÃveis, com mais plataformas exibindo, e parcerias globais, não é mais uma audiência de nicho. Se tornou mainstream. E acho que isso é positivo. Acredito que antes nosso foco estava em menos tÃtulos, e agora isso aumentou. Estamos vendo mais Jojo’s, obras como Dan Da Dan, até mesmo Death Note, que não é novo, mas caiu novamente nas graças dos fãs, temos NANA.
Acho que começamos a ver mais tÃtulos [diversificados] fazendo sucesso, e essa foi uma das mudanças que observamos. E eu gostaria de ver ainda mais divulgação de animês para além das lojas focadas em cultura pop. Quero vê-los em todos os lugares do mercado.
Você mostrou alguns vÃdeos de espetáculos de orquestras sinfônicas tocando músicas de animês. Há planos de trazer esses shows ao Brasil?
Laura: O que posso dizer é que algo pode acontecer em um futuro próximo. Como falei antes, queremos criar mais momentos para os fãs celebrarem as franquias. É algo que combina com Naruto, por exemplo. Nem toda marca é capaz de fazer isso, mas queremos enfatizar essas experiências para Naruto.
Qual é o potencial e os desafios que você enxerga para o mercado brasileiro de animês nos próximos anos?
Laura: Eu diria que esse mercado vai continuar crescendo. Existem questões, mas acho que são passageiras e o mercado vai seguir crescendo. Há muitas oportunidades para expandir o animê no Brasil, apesar dos desafios que falamos, como a demora no processo de aprovação. Por conta de questões de produção, à s vezes não conseguimos trazer alguns produtos feitos em outros paÃses, e isso significa que precisamos fabricar no Brasil. É um processo um pouco mais demorado, por conta do ciclo de aprovações, mas também é uma oportunidade de trabalhar com profissionais locais. Mas, novamente, isso vai demorar um pouco para chegar ao mercado.
Você vê a pirataria como um desafio? Porque, por muito tempo, empresas japonesas reclamaram da pirataria e deixaram de ter uma presença mais global, culpando essa falsificação. Mas, nos mercados da América Latina, também é uma questão estrutural.
Laura: Acho que é um desafio. Sempre é, porque nós temos certos parâmetros para representar as marcas, trabalhamos com os proprietários, então quando a pirataria pega alguns atalhos, eles não passam por um processo de aprovação rigoroso, oferecem materiais mais baratos e inferiores. Queremos nos certificar de proteger o consumidor e entregar sempre a melhor experiência de marca. Então é um tipo de ameaça, mas trabalhamos também com os agentes locais para lidar com isso da melhor forma possÃvel, inclusive com medidas online, que derrubam algumas coisas. Não sei se temos algumas ações presenciais sobre isso, mas na parte online temos algumas empresas que nos ajudam a não deixar os produtos piratas disponÃveis.
Luiz: Nós temos um advogado no Brasil que trabalha com todas as questões ligadas à pirataria de produtos. E uma vez eu recebi uma reclamação de um cliente, um licenciado mesmo, que falou algo como ‘à s vezes a pirataria é boa’, porque é algo que impulsiona o mercado. E ele acredita que derrubar reduz a marca no mercado. Às vezes, quando some, ele disse que o público reclama ‘poxa, não tem nem pirata?’. Claro que foi uma piada, mas foi essa a colocação do licenciado. É extremamente complicado.
Parte do espaço da Angelotti Licensing na LicensingCon Latam 2026 | Cakes Sousa/JBox
Quais são os planos e perspectivas da VIZ para o Brasil nos próximos anos?
Laura: Como falamos antes, a coisa nº 1 é focar nos fãs. O que podemos fazer para criar conexões mais significativas, criar memórias, e estamos fazendo isso através de grandes colaborações, incluindo eventos especiais, experiências, que vocês vão começar a ver acontecendo nos próximos meses. E também queremos uma expansão no portfólio trabalhando com novos tÃtulos, como Dan Da Dan, que tem a 3ª temporada a caminho, com a nova fase de Jojo’s, e até Bleach, que está agora na temporada final. Então eu diria que essas seriam as maiores propriedades [a serem trabalhadas nos próximos meses], e para o Brasil especificamente estamos preparando mais novidades de Captain Tsubasa. Diria que essas serão as maiores iniciativas em que vamos focar. Vamos expandir e ter mais animês em todos os lugares.
Reportagem: Laura Gassert e Cakes Sousa | Tradução: Cakes Sousa | Edição final: Rafael Jiback | O JBox agradece à Angelotti Licensing pelo convite e à Laura Takaragawa pela oportunidade e disponibilidade.
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