
Na noite do dia 4 de maio, o presidente dos Estados Unidos Donald Trump anunciou em seu perfil da rede Truth Social que vai “iniciar o processo de instituir uma tarifa de 100% em todo e qualquer filme trazido para nosso país [os Estados Unidos] que tenha sido produzido em terras estrangeiras”. Por conta das possíveis implicações e reverberações internacionais da medida, fui convidado pela equipe editorial do JBox para escrever um artigo extra explicando como essa decisão pode afetar o nosso mercado nacional.
A indústria de cinema está MORRENDO uma morte rápida nos Estados Unidos. Outros países estão oferecendo todo tipo de incentivo para levar nossos cineastas e estúdios embora dos Estados Unidos. Hollywood e outras áreas do país estão sendo devastadas. Esse é um esforço articulado de outras nações e, portanto, uma ameaça à Segurança Nacional. É, além de tudo, uma mensagem e propaganda! Portanto, estou autorizando o Departamento de Comércio, e o Representante do Comércio Exterior, para iniciar imediatamente um processo de insituição de uma tarifa de 100% em todo e qualquer filme trazido para nosso país que tenha sido em terras estrangeiras.
Eu teria respondido “sei lá”, porque ninguém sabe mesmo ao certo, mas aí eles não me publicariam e talvez ficassem de mal comigo. Então vamos à resposta completa e cheia de nuances.
O que é um “filme estrangeiro” para os EUA?
Antes de tudo, é importante contextualizar que mesmo os filmes que consideramos “estadunidenses” são muitas vezes produzidos fora do país, em parte ou até totalmente. Alguns exemplos famosos incluem O Senhor dos Anéis, filmado e produzido na Nova Zelândia, mas isso vale para muitos projetos recentes também. Wandinha, a recente produção da Netflix, foi filmada na Romênia e a maior parte dos seus créditos de produção é formada por profissionais romenos. Missão: Impossível – O Acerto Final, agora em cartaz, foi filmado inteiramente na África do Sul e em diversos países da Europa. Muitos motivos levam uma produção a ser realizada fora do país — seja por seus cenários exóticos, sua mão-de-obra mais barata ou até por incentivos fiscais governamentais.
Tudo indica que é essa competitividade que a tarifa proposta por Donald Trump visa corrigir. A medida foi anunciada após o presidente dos EUA se reunir com Jon Voight, ator e representante da indústria de Hollywood, que vem enfrentando desafios para se manter. Há muitas incertezas sobre esse anúncio: membros da indústria temem que isso só prejudicará a produção de filmes, e argumentam que benefícios fiscais seriam mais efetivos. Economistas tentam entender os impactos da decisão, e o próprio histórico de Trump no que tange tarifas deixa a dúvida se ela realmente chegará a ser aplicada.
Seja como for, de uma coisa não temos dúvida: qualquer medida a ser tomada contra filmes estrangeiros vai pegar os filmes de animê nos EUA no fogo cruzado. Não que eles sejam uma ameaça pra indústria — o filme de animê mais assistido nos EUA em 2024 foi Demon Slayer: Kimetsu No Yaiba – To the Hashira Training, que arrecadou US$ 17,6 milhões, menos que Kraven: O Caçador e em #77 no ranking final. O Menino e a Garça, que arrecadou US$ 46,8 milhões, foi lançado em dezembro de 2023.
E o Brasil com isso?
Mas considerando que essa tarifa realmente venha a ser aplicada, como isso afeta o nosso mercado local? E por que afetaria?
A “tariff” (neste artigo traduzido como tarifa) é um imposto sobre um produto ou serviço, geralmente coletado na fonte, que geralmente tem o objetivo de equilibrar disparidades de oferta e demanda entre nações. De natureza protecionista, ela geralmente é pareada com algum tipo de incentivo fiscal ou financeiro à produção local, visando proteger a independência produtiva e financeira do país. No caso da medida anunciada por Trump, a ideia é tornar produções estrangeiras tão caras e inviáveis que a única alternativa dos estúdios seja trocar a Geórgia (país do leste europeu) pela Georgia (estado do leste norte-americano).
Tarifas precisam ser cuidadosamente desenhadas para evitar que brechas e interpretações acabem causando mais mal do que bem. Por exemplo, se a tarifa se aplicar apenas à produção internacional, mas não ao licenciamento internacional, isso pode levar à criação de empresas de fachada em outros países que se encarregam de toda a produção e apenas licenciam o produto final para o mercado americano. Assim sendo, é bastante provável que essa tarifa também se aplique a licenças de filmes estrangeiros.
Da mesma maneira, se a tarifa se aplicar apenas a lançamentos de cinema, e não a streaming, TV e home video, a solução é simples: basta evitar o cinema para escapar da tarifa. Por isso, essa tarifa provavelmente também se aplicará a todos os canais de distribuição. E por fim, em um mundo onde o episódio final de Stranger Things está cotado para ter mais de duras horas de duração, e a barreira entre os formatos está cada vez mais turva, acredito que a tarifa também se aplicará a séries, minisséries, compilações e outros formatos de audiovisual.
Ou seja, existe um cenário hipotético onde a Crunchyroll, uma empresa estadunidense de streaming de séries e filmes, terá que pagar de tarifas ao governo dos EUA 100% do valor que ela paga aos licenciantes por suas produções japonesas produzidas no Japão e em estúdios asiáticos.
Não é preciso dizer como isso impactaria nosso mercado. Quase todos os streamings de animê que operam oficialmente no nosso país são estadunidenses (com a exceção da Anime Onegai), e quase todo o conteúdo presente nessas plataformas é licenciado através de empresas estadunidenses.
Talvez os filmes de Detective Conan, licenciados pela TMS Entertainment para o Max no mercado latino-americano não sofra a incidência da tarifa, mas é difícil dizer se o processo não passa em algum momento pela matriz estadunidense. Mesmo no âmbito de filmes, nem sempre as empresas brasileiras lidam diretamente com as produtoras japonesas. Distribuidoras de outros países atuam como parceiros e intermediários no processo de obtenção de licenças, ainda que muitas vezes não sejam empresas dos EUA. Para citar exemplos recentes, tivemos The First Slam Dunk pela Cinecolor via Konnichiwa Festival (México) e O Menino e a Garça pela Sato Company via Goodfellas (França).
Possíveis saídas
Se a tarifa fosse de 10%, é bem provável que a maioria das empresas apenas incluiria o valor no balancete e repassaria para os consumidores, mas uma tarifa de 100% exige que as empresas tomem medidas mais ousadas para se adaptar à nova realidade.
A Crunchyroll pode ser capaz de aproveitar sua presença internacional e o fato do conglomerado Sony ser japonês para amenizar quaisquer problemas. Distribuidoras japonesas podem ter dificuldades em centralizar tudo nos EUA e serem obrigadas a fechar acordos mais locais e regionais. Talvez a Netflix comece a investir mais em “animês feitos nos EUA” como o insosso Devil May Cry.
Talvez fiquemos meses sem novos lançamentos oficiais até tudo se reorganizar. Seja como for, será um impacto sísmico para todos que acompanham. Ou talvez as tarifas nunca venham a ser aplicadas, que é a hipótese na qual eu mais acredito. Fecho vintão com quem quiser apostar.
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