
O Dia Internacional da Mulher, data comemorada em 8 de março, é todos os anos palco de diferentes discussões ao mesmo tempo que é interpretado de maneiras distintas a depender de quem está tratando o tema. Por vezes visto mais como uma data comemorativa na qual se escrevem e dizem muitas palavras bonitas — na maioria dos casos lotadas de senso comum e que reforçam estereótipos e realizações normativas de gênero — do que como um dia para relembrar que mulheres são sujeitos capazes de se organizarem politicamente a fim de reclamarem seus direitos, o 8 de março chega este ano num momento um tanto mais delicado.
Com o aumento da violência contra as mulheres (ou ao menos uma maior divulgação desses casos), o 8 de Março se torna o momento no qual não se pode deixar de falar sobre as questões das mulheres em qualquer lugar onde a opressão de gênero seja vocalizada. Por esse motivo, hoje vamos falar de três escritoras japonesas contemporâneas que discutem em seus romances as questões sociais referentes às mulheres.
Sayaka Murata e a anormalidade

Sayaka Murata. | Foto: Reprodução
No que diz respeito a tratar “questões femininas” — casamento, reprodução, identidade de gênero, exploração da capacidade reprodutiva feminina, maternidade — provavelmente o primeiro nome que nos vem a mente é o de Sayaka Murata.
Talvez uma das escritoras japonesas contemporâneas mais conhecida no Brasil, Murata costuma construir suas obras de duas maneiras: frequentemente narradas em primeira pessoa, parte das obras de Murata são contadas a partir da perspectiva de uma pessoa (geralmente uma mulher) que se sente deslocada socialmente e a partir disso analisa o que é entendido como “normalidade”; outra parte de suas obras são narradas a partir de uma “normalidade diferente” a fim de demonstrar as contradições e a violência contidas no que a sociedade chama de “normalidade”.
Outra característica importante das obras de Murata é a construção de suas narrativas a partir de uma dicotomia entre “normal” e “anormal”, situando suas protagonistas no polo da “anormalidade”. Assim ela observa, descreve e critica o que a sociedade japonesa toma como “normalidade” e o modo de vida em concordância com ideias pressupostas sobre gênero, trabalho e família relacionadas ao senso comum.

‘Querida kombini’ e ‘Terráqueos’, obras de Sayaka Murata publicadas no Brasil. | Imagem: Reprodução/Estação Liberdade
Os romances mais conhecidos de Murata são Querida Konbini (Konbini Ningen no original em japonês) e Terráqueos (título original Chikyuuseijin) ambos publicados no Brasil pela Estação Liberdade sob a tradução de Rita Kohl. Outra obra bastante importante da autora é o conto Satsujin Shussan (Nascimentos Assassinos, em tradução livre) contido numa coletânea de contos homônima. As primeiras duas obras são um exemplo de narrativas contadas a partir de uma personagem enquadrada no plano da anormalidade, enquanto a última é narrada a partir de uma “normalidade” diferente.

Capa japonesa de ‘Satsusjin Shussan’. | Imagem: Reprodução/Estação Liberdade
Com suas narradoras-personagem analíticas e sinceras, Sayaka Murata aborda em seus livros o que é esperado socialmente para uma mulher, bem como o que acontece quando ocorre a recusa à essa adequação tornando possível relacionar seus escritos com importantes questões do Japão contemporâneo como: mulheres no mercado de trabalho, queda da taxa de natalidade, questões familiares, abuso infantil, abuso sexual etc.
A escrita feminista de Aoko Matsuda

Aoko Matsuda. | Foto: Reprodução
Quando se fala de expectativas sociais sobre mulheres, outro nome que não pode deixar de ser mencionado é Aoko Matsuda. Escritora e tradutora, Matsuda fez sua estreia no mundo da literatura com a coletânea de contos Sutakkingu Kanou (Empilhável, em tradução livre), publicada em 2013.
Feminista declarada, Matsuda aborda em suas obras de forma muito direta a violência contra a mulher, a emancipação feminina, a mudança na vida das mulheres japonesas etc. Alguns de seus escritos mais relevantes são “A Mulher Morre” (On’na ga Shinu), publicado na revista Granta em 2019, e Onde Vivem as Monstras (Obachantachi no iru tokoro) publicado no Brasil pela editora Gutenberg; ambas traduzidas por Rita Kohl.
Em “A Mulher Morre”, Matsuda elenca diferentes motivos pelos quais uma mulher costuma ser morta em filmes e demais obras de ficção e continua crescendo o debate até que a questão extrapole as histórias fictícias. Já em Onde Vivem as Monstras, a autora reconta histórias japonesas de fantasmas a partir de uma perspectiva feminista e bem-humorada.

Capas de ‘The Woman Dies’ (edição da revista Granta) e ‘Onde Vivem as Monstras’. | Imagem: Reprodução
Você pode encontrar mais informações sobre a obra no artigo ‘Onde vivem aquelas que chamaram de monstras?’, publicado aqui no site.
Mieko Kawakami e o corpo feminino

Mieko Kawakami. | Foto: Reprodução
Fechando nossa lista, não poderia faltar Mieko Kawakami, cujo romance Peitos e Ovos (Chichi to Ran) foi publicado no Brasil em 2023 pela editora Intrínseca com tradução de Eunice Suenaga. O livro narra a relação entre três mulheres da mesma família — uma mãe, uma filha, e uma irmã/tia — e por meio dela demonstra um olhar sobre o corpo feminino e as pressões da puberdade.
Kawakami, que já foi cantora, é uma escritora profícua reconhecida pelo uso do dialeto de Osaka em suas obras, bem como seu estilo poético e experimental. Ela aborda tanto as questões referentes ao corpo feminino quanto questões mais profundas sobre sentimentos e afetividade femininas.
Ela também foi responsável por conduzir uma série de entrevistas com o consagrado autor japonês Haruki Murakami, nas quais inqueriu o autor sobre a forma que ele aborda mulheres e a sexualização feminina em seus romances. As entrevistas foram compiladas em um livro chamado Mimizuku wa tasogare ni tobitatsu (A Coruja Alça Voo ao Entardecer, em tradução livre), publicado em 2017.

Capas de ‘Peitos e Ovos’ e ‘Mimizuku wa tasogare ni tobitatsu’. | Reprodução
As obras de Sayaka Murata, Aoko Matsuda e Mieko Kawakami são boas ferramentas para refletirmos sobre como as mulheres japonesas são representadas na literatura contemporânea e quais expectativas são colocadas sobre elas, além de quais os estereótipos e papéis de gênero “devem” ser cumpridos no Japão atual. Elas também demonstram que de que maneiras mulheres japonesas reais escolhem representar personagens femininas e quais temas essas autoras consideram pertinentes de ser abordados, assim como de que maneira elas preferem realizar essa abordagem.
Suas publicações e o espaço que essas escritoras japonesas ocupam nos permitem pensar sobre a posição, o tratamento e o que é esperado das mulheres japonesas na sociedade contemporânea ao mesmo tempo que derrubam a visão que certos “comentadores sobre Japão” do eixo euro-americano inconscientemente ou conscientemente desejam espalhar: a falácia de que mulheres japonesas são apenas submissas por natureza e que elas não refletem sobre seu lugar social nunca sendo agentes de sua própria história.
O texto presente neste artigo é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox (mas evidentemente ele apoia, essa é só uma frase protocolar).
Clique aqui para acessar nosso arquivo de artigos.
from JBox https://ift.tt/vHMPE2Q
via CineLive365
Post a Comment