Crítica | ‘Battle Royale’ e o autoritarismo no texto e subtexto | Volume 1 | Pipoca & Nanquim

Crítica | ‘Battle Royale’ e o autoritarismo no texto e subtexto | Volume 1 | Pipoca & Nanquim

Quando se está mergulhado fundo demais em um hobby, é comum querer se debruçar em títulos que são grandes exemplos de obras-primas de meios artísticos específicos. Um exemplo clássico está no cinema, que, se você é “cinéfilo de verdade”, tem quase como obrigação ir atrás de Cidadão Kane. No entanto, existe uma outra prática semelhante, que é ir atrás de algo que originou um gênero ou um tipo de convenção — ou trope, se preferir — para um meio artístico, quase como um estudo histórico. E o livro Battle Royale, de Koushun Takami, lançado em 1999 no Japão, é uma dessas obras.

Quem acompanha de perto a cultura pop como um todo, já está cansado de ouvir que Battle Royale foi responsável por popularizar todo um gênero focado em personagens que são colocados em uma espécie de jogo onde precisam se matar até que reste apenas um vivo (ou pelo menos é essa a regra geral da coisa). É um efeito muito mais derivado do filme lançado em 2000 que do livro original em si, mas o live-action não foi a única adaptação de sucesso da obra: o mangá também é outro queridinho entre as adaptações e é nele que esta crítica tem foco.

imagem: página do mangá 'Battle Royale' onde protagonista Shuya aparece cantando enquanto toca guitarra até ser interrompido por um amigo chamando seu nome.

Reprodução: Pipoca & Nanquim

Assim como a obra original, o mangá ilustrado por Masayuki Taguchi conta a história de um Japão alternativo que foi tomado pelo autoritarismo e rivaliza com o “Império Americano”. É nesse mundo que vive Shuya Nanahara, um jovem considerado rebelde por achar a sociedade onde vive injusta e por vocalizar isso através do rock ‘n’ roll, estritamente proibido na “Grande República do Leste Asiático”.

Uma das coisas mais chocantes do Japão alternativo é a iniciativa chamada de “O Programa”, onde alunos do 9º ano são colocados uns contra os outros até que apenas um sobreviva. Só uma turma em todo o país precisa passar pelo processo por ano, mas jovens e famílias já crescem com o receio de serem escolhidos, o que vai de acordo com as ideias propagadas pelo governo, que quer fortalecer sua juventude em caso de uma nova guerra com o Império Americano — algo que se estende, inclusive, para os esportes, considerando que o beisebol, querido pelos dois países, é visto como uma ferramenta de conflito cultural, o que faz Shuya largar sua vida como atleta.

Claro, Shuya e todos os seus colegas de turma acabam sendo os escolhidos para participar do Programa, sendo levados para uma ilha enquanto pensavam estar simplesmente a caminho de uma excursão escolar. O mangá apresenta logo de cara um retrato brutal e violento da situação para os alunos: as regras são rígidas, sem brechas e fazem com que qualquer tentativa de impedir a situação seja punida de forma extrema, com alunos sendo assassinados antes mesmo que o jogo comece, algo que rapidamente afeta o psicológico de Shuya.

A partir daí, a história rapidamente se torna um banho de sangue, que, nessa adaptação, pode ser considerado um dos grandes trunfos. Tendo lido a obra original, particularmente acho uma experiência mais agradável — se é que essa é a palavra — o terror mais psicológico do romance. De como observamos o íntimo da mente de alunos levados ao desespero e à loucura. Mas o mangá também faz um trabalho competente em mostrar como os jovens são afetados pela situação, mostrando na medida do possível o que levou cada personagem abordado a tomar as ações que tomou.

Reprodução: Pipoca & Nanquim

A atitude de alguns é matar para sobreviver, porque a experiência anterior em sala de aula, cheia de bullying e exclusão social, já os tornavam em um alvo fácil. Outros querem fugir da realidade, seja se escondendo ou de forma mais brusca, buscando o suicídio, o que deixa claro como o desespero toma conta rápido de alguém. Outros, como Shuya, querem combater diretamente quem os colocou nesse jogo, porém a história deixa claro que cada um quer fazer isso da sua própria maneira. Mas, claro, outros vários apenas abraçam o Programa e deixam os instintos assassinos tomarem conta.

A forma como o jogo funciona e cada personagem lida com isso acaba sendo um retrato bem característico da vivência dentro de um regime totalitarista. Os personagens que se suicidam, apesar de não serem exatamente relevantes para a trama, marcam bastante, principalmente por ser uma atitude que eles tomam já no início da história. Em um país já difícil de viver, eles são inseridos em uma situação extrema, o que instantaneamente leva ao colapso. Outra coisa interessante do momento do suicídio é que ele é bastante breve, o que acaba reforçando a mensagem de como a pressão os afetou rapidamente.

Uma das primeiras mortes também faz um paralelo interessante, porque observamos a perspectiva de um personagem que a vida inteira foi desprezado pela sociedade ao seu redor. Então, mesmo sendo alguém recatado, sua primeira atitude é atacar seus colegas visando a própria sobrevivência, algo que logo sai pela culatra. É outro exemplo interessante de alguém que foi levado ao extremo em uma situação já opressiva, mostrando que pessoas marginalizadas podem acabar sendo forçadas a adotar atitudes violentas para sobreviver, ainda que saibam as consequências e o erro de fazer isso.

Reprodução: Pipoca & Nanquim

Mesmo entre aqueles que estão tentando mudar as coisas de forma mais direta, é difícil enxergar alguma esperança permeá-los naquela situação. Shuya é um idealista nato que recebe diversos choques de realidade durante o primeiro volume, mas não larga o osso de seguir seu ideal de justiça.

Shogo é um outro personagem que também quer mudar as coisas lidando diretamente com os opressores, mas o vemos tratar a situação de forma bem mais realista. Enquanto Shuya quer buscar esperança no diálogo com todos ao seu redor, Shogo sabe que não são todos que estarão ao seu lado para se rebelar, mas ainda pretende criar uma minoria dedicada a lutar pelo o que é justo, mesmo que precise se munir de violência contra aqueles que apenas querem seguir cegamente o que o jogo manda. É um conflito interessante de ver acontecer na história e particularmente prazeroso de ver que, apesar das discordâncias, os dois ainda levam a opinião um do outro em consideração, por mais que Shuya tenha uma atitude mais relutante.

Neste primeiro volume, a outra integrante do grupo de Shuya e Shogo é Noriko, que assume o papel de “apenas uma pessoa comum” no meio do jogo. Apesar serem apenas alunos, todos os personagens com mais destaque na história demonstram ter uma característica mais especial que os fazem se sobressair diante dos outros, seja física ou intelectual. Então, por mais que a história mostre que a personagem tem uma boa capacidade de compreensão da situação, ela acaba caindo muito no papel de heroína a ser defendida pelo protagonista, algo que é dito praticamente com todas as palavras durante a narrativa.

É algo reforçado por questões de época (por mais que não seja uma obra tão antiga assim) e pelo tipo de história, mas as mulheres, no geral, são tratadas de maneira bem redutiva durante esse primeiro volume. O mangá até coloca uma personagem, Mitsuko, como uma grande femme fatale, mas não se aproveita tanto dessa característica pra construir uma narrativa interessante em volta disso durante o jogo, por mais que tenha uma história extra com ela que consegue mostrar bem esse papel. Um outro viés que o mangá mostra entre as personagens femininas é através de Takako, que age de forma mais combativa, mas, como ela aparece apenas nos momentos finais desse primeiro encadernado, não dá pra sentir muito a nova perspectiva.

Reprodução: Pipoca & Nanquim

Apesar de tornar a caracterização dos personagens um tanto unidimensional, o mangá de Battle Royale faz um ótimo trabalho em conduzir uma narrativa com uma mensagem que escancara os terrores de um governo autoritário e cria um paralelo interessante entre o regime que critica com a situação dos alunos que precisam participar do Programa. O terror que eles sentem na situação é reforçado bastante pelos desenhos da obra, com expressões que flutuam entre a raiva de uma traição, a felicidade pelo apoio de um companheiro e até mesmo o alívio encontrado apenas na morte.

Os confrontos entre os alunos também se destacam bem, por mais fácil que seja descobrir o resultado de cada “embate” nesse início. A maior parte dos conflitos são acompanhados de algum flashback, fazendo os alunos pensarem com ainda mais pesar sobre a situação em que estão, o que dá aquele gostinho a mais pra coisa para aumentar a empatia do leitor pelos personagens. Claro, é praticamente impossível tornar a luta pela vida ou morte de 42 personagens comovente, ainda mais quando às vezes é necessário mostrar justamente a brevidade da morte ou uma figura a se odiar. Porém, a história ainda faz um trabalho competente em mostrar um panorama geral da maioria dos alunos envolvidos mais diretamente nesse primeiro volume e tornar os personagens de mais destaque intrigantes de se acompanhar.

Mesmo com uma mensagem bastante política, a história da obra é bem simples de acompanhar. Existem críticas mais escrachadas além do subtexto, então é bem fácil de absorver mesmo “desligando o cérebro”. O drama dos personagens por conta própria entretém bastante, então é bem fácil de torcer pelos “mocinhos” saírem bem dali, mesmo que a ingenuidade de Shuya possa acabar sendo um fator irritante.

O problema de ler a história sem prestar atenção aos detalhes é que olhos destreinados podem acabar achando ela tendenciosa para o lado dos Estados Unidos, já que o Japão que vem ao foco como país totalitarista e é o rock ‘n’ roll que representa a mensagem de liberdade na vida de Shuya. Só que é importante observar que não é à toa que, nesta distopia, os Estados Unidos são chamados de “Império” e também que o rock ‘n’ roll surgiu justamente durante a luta dos negros americanos pela luta contra com a segregação, ou seja, é uma mensagem de liberdade propagada diretamente por uma população oprimida.

Em resumo, Battle Royale é um mangá com uma mensagem bastante política, não usando a violência apenas de forma gratuita, transformando um jogo sangrento em um retrato condensado do autoritarismo que quer criticar. Porém, por abrir um tanto mão da densidade psicológica do livro de origem, o mangá consegue ser bem aproveitado também de forma descompromissada como uma boa história de ação, sem perder a qualidade narrativa de forma que afete a experiência.

Além de tudo, a obra é também uma das versões do que se tornou o alicerce de todo um gênero narrativo que deriva até hoje a criação filmes, animações, jogos e outros livros, algo que, para nós que já estamos enfiados fundo demais em nossos hobbies, acaba sendo gostosíssimo de acompanhar, nem que seja como um estudo para entender a história de como foi estabelecido um gênero tão difundido hoje em dia na ficção.

 

Galeria de fotos

Confira no álbum abaixo alguns registros da edição nacional do 1º volume de Battle Royale pela Pipoca e Nanquim. A coleção da editora compila a obra em 5 volumes em capa dura, sendo que o primeiro tem 620 páginas. A antiga edição da Conrad (1ª publicação da obra no Brasi) seguia a divisão original, com 15 volumes:

 

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Essa resenha foi feita com base na edição cedida como material de divulgação para a imprensa pela editora Pipoca e Nanquim, que disponibilizou o volume da obra ao JBox.


O texto presente é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox. 


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