
Luto é sempre algo complicado. É impossível dizer que há maneira certa ou errada de lidar com ele. Tem pessoas que imediatamente transbordam com os sentimentos nele. Tem outras cuja ficha demora ou pouco ou muito para cair. Já com alguns, o momento mais catártico, de cair em lágrimas, se desesperar, sequer chega. Vai de cada um, vai do tipo de relação que tinha com aquele que partiu, dentre outras coisas.
Um animê recente a retratar esses tipos diferentes de luto é Ikoku Nikki, aqui chamado pelo título inglês de Journal with Witch, que foi ao ar nessa última Temporada de Inverno. A animação adapta o mangá josei de mesmo nome, escrito e ilustrado pela autora Tomoko Yamashita, publicado entre 2017 e 2023 na revista Feel Young, da editora Shodensha, com 11 volumes encadernados no total. Na trama, uma menina de 15 anos chamada Asa Takumi perde seus pais em um acidente de carro. Então, sua tia materna, Makio Kodai, uma escritora de 35 anos, resolve acolher a menina ao se frustrar com a maneira como o resto da família a trata durante o velório.
Mas há algumas problemáticas nessa adoção e no modo como elas precisarão se relacionar. A primeira delas é que Makio é uma pessoa bastante introvertida, socialmente envergonhada, que não gosta de lidar com público, que não faz muita questão também de ser aceita ou gostada pelos outros. Ter a sua casa, rotina e vida “invadida” de surpresa pela sobrinha, para ela, é um desafio. A segunda é que a Makio não se dava bem com a mãe de Asa. Elas eram irmãs de sangue, dos mesmos pais, mas pelo modo como a mãe de Asa tratava a Makio, elas já não tinham mais qualquer relação.
As duas então precisam lidar uma com a outra, com o luto, com as mudanças em suas vidas, com os tramites relacionados à morte dos pais de Asa e ainda com as interferências externas que, para o bem e para o mal, passam a acontecer nessa relação. É um animê extremamente sensível, bonito e fácil de se relacionar pelo quão pé no chão é sua construção. Você poderia ser a Asa, a Makio ou qualquer um dos coadjuvantes que cercam elas.
Asa era uma menina alegre. Vemos por flashbacks que ela, como quaisquer adolescentes existentes, também tinha seus problemas com seus pais. Ela sempre gostou de música, mas nas vezes em que tentou investir nisso durante a infância, sua mãe a cobrava uma perfeição competitiva que a menina não tinha interesse algum. Então, passou a procurar no pai um olhar de validação, que não veio tão forte quanto ela gostaria. Isso rolou também mais pra frente, quando a menina decidiu cortar o cabelo bem curto, causando irritação em sua mãe, que considerava aquele corte masculino demais. Já seu pai… bom, pra ele tanto faz.
Após a morte dos dois, a garota passa por uma montanha-russa de sentimentos e de reações ao luto. Há o choque da descoberta, o choro desesperado no velório, momentos mais estoicos dentro de casa em que ela prefere dormir a lidar com qualquer coisa. Há diferentes fases rebeldes, onde ela arruma problema com sua melhor amiga por a mãe dela ter contado sobre o acidente na escola, com sua tia por não ter entregado um diário pertencente a sua mãe, com o mundo ao redor ao parar de ir pro colégio, em que ela culpa sua mãe por ter partido.

Imagem: Reprodução/Crunchyroll
Há também momentos onde ela passa a questionar o que de bom há em agora ser órfã. Ela sempre cantou, sempre gostou de música, quer escrever músicas, quer cantar em público. Agora, ela pode fazer isso, pois sua tia a apoia. Ela pode começar a decidir por si própria como quer viver sua própria vida sem necessitar da aprovação dos pais. E enfim há o momento de catarse emocional, mais ao fim da temporada, onde ela enfim se debulha em lágrimas ao ler um livro escrito pela Makio e perceber que, na verdade, esse choro é por finalmente aceitar que seus pais partiram.
Makio também é uma personagem interessantíssima. É legal assistir uma adulta que já aprendeu a lidar com seus traumas, que entendeu que teve problemas relacionados a sua família no passado e decidiu se desvencilhar disso sem qualquer vergonha ou preocupação com o que a sociedade ao redor acharia. Ela enxergou os culpados e, bom, os culpou, seguiu a vida dali sem eles e se tornou uma adulta feliz com as suas próprias complexidades em vez de triste pelas que foram atribuídas a ela.
Ser ela a parente responsável pela Asa nesse momento cola narrativamente pela ironia da situação. E o fato dela não se anular agora que se tornou mãe adotiva da menina, de não mudar seu estilo de vida, de não se transformar em outra pessoa para agradar a menina, faz de tudo ainda melhor. É legal também assistir aos coadjuvantes que entram na história através dela e acabam afetando a Asa. O ex por quem ela ainda tem sentimentos, suas melhores amigas do tempo de escola que ela ainda carrega até hoje, um advogado presente ali para intermediar a situação que rende cenas bem engraçadas, e por aí vai.
Imagem: Reprodução/Crunchyroll
Os coadjuvantes trazidos pelo lado da Asa também são muito bons. A maior é a sua melhor amiga, Emiri, com quem ela estudou durante o ensino fundamental e agora está em outra sala no ensino médio. Emiri não é só a “melhor amiga” na trama, ela também tem suas complexidades. Linda, ela chama atenção dos garotos na escola nova, mas há algo nessa seara que ela ainda não está pronta para conversar nem com a Asa — mas que é logo percebido pela Makio, que a ajuda ao emprestar um DVD de um filme que a fará pensar bastante e entender o quão bonita pode ser sua vida.
Os demais alunos do colégio também têm seus momentos, com alguns servindo de alívio cômico, outros servindo como inspiração para a Asa no clube de música e na banda da qual ela quer fazer parte. Há uma menina que sofria bullying durante o ensino fundamental e que agora é feliz ao ter feito novos amigos. Há um rapaz que faz parte do time de beisebol que passa a questionar o porquê de aquele ambiente masculino ter que ser tão tóxico. E a roda gira para todos eles, pois o tempo passa.
Journal with Witch é muito bom no modo como ele conta essas histórias. Ele toma o tempo que acha que tem que tomar, não tem pressa, é daqueles slices-of-life que realmente nos recortam uma parte da vida daqueles personagens e fazem a gente se importar com o que estamos assistindo.
A 1ª temporada completa de Journal with Witch está disponível na Crunchyroll com opções de legenda e dublagem em português.
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