Continuando uma história mais longa do que a própria série de TV, os conflitos entre os canais oficiais de Mobile Suit Gundam: The Witch from Mercury talvez tenham colocado um fim em um problema que eles mesmos criaram.
No último dia 3 de abril, a conta oficial do animê no X postou um aviso em japonês e em inglês informando que de agora em diante desabilitariam comentários e citações em suas postagens. O motivo? Briga entre fãs.
Imagem: Reprodução/X
“Agradecemos por visitar esta conta. Embora já tenhamos emitido avisos sobre as publicações, continuamos a observar difamação, discurso discriminatório e outras postagens inapropriadas que podem perturbar outros usuários. Por enquanto, desativamos as respostas para garantir um ambiente de navegação seguro para todos. Pedimos sinceras desculpas a todos que têm utilizado este serviço de forma adequada e agradecemos a sua compreensão para que possamos continuar a explorar novas obras juntos.”
No entanto, o buraco é muito mais embaixo. Embora o anúncio tenha acontecido após brigas recorrentes entre o fandom global, majoritariamente LGBTQIAPN+ e apoiador do casal principal homoafetivo Suletta e Miorine, entende-se que a justificativa da página se dá por mau comportamento destes por atacar um personagem fictício secundário nas postagens com foco nele — o Guel Jeturk.
Com o passar dos anos, o que mais se nota é uma postura constante da Bandai Namco (produtora da franquia Gundam) de apagar as protagonistas e omitir o casamento das duas ao final da série. Um exemplo marcante foi quando Kana Ichinose, a voz original de Suletta, teve seu comentário sobre o matrimônio censurado em uma entrevista na revista Gundam Ace, da editora Kadokawa. Além disso, as publicidades focadas em Guel Jeturk, o personagem masculino mais popular da obra, são incessantes, muitas vezes utilizando cenas que o colocam em destaque ao lado da protagonista Suletta Mercury.
Repercussão entre o público
Apesar dos esclarecimentos oficiais, os fãs alegam que as cobranças nas redes sociais se devem justamente a esse apagamento das protagonistas em prol de um personagem masculino secundário — que acaba servindo de token para os chamados “chuds”. O termo chud assemelha-se a troll ou incel, descrevendo indivíduos com comportamentos discriminatórios que buscam exercer uma suposta superioridade intelectual para atacar grupos específicos (como mulheres e a comunidade queer). Deste modo, o personagem Guel Jeturk é usado por esses grupos para causar apagamento queer e comentários misóginos na internet, mesmo que isso não tenha ligação com o personagem em si na obra.
Após a nota da página no X, uma onda não só misógina, homofóbica, mas também xenofóbica teve início por parte de usuários japoneses do site, referente aos “fãs de yuri” e fãs globais, sendo chamadas de yuri-buta, ou no português, “porcas lésbicas”. Fãs de dentro e fora do Japão mostraram seu desconforto sobre o posicionamento da conta oficial.
Imagem: Reprodução/X
“Como alguém que já se relacionou com uma pessoa do mesmo sexo diversas vezes, enfrentei vários tipos de discriminação ao longo dos anos. Naquela época, cheguei a ser barrada na recepção quando tentei alugar um quarto. Fiquei surpresa que G-Witch mostre discriminação entre Espacianos e Terráqueos, mas não haja discriminação contra relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo.
Ver SuleMio finalmente unidas no final fez de G-Witch minha série favorita de todos os tempos. Suletta ficou inicialmente chocada com o casamento entre pessoas do mesmo sexo (representando o senso comum do espectador), mas a frase icônica de Miorine ‘Mercúrio é tão antiquado. Isso é normal aqui’, mostrou instantaneamente que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é completamente comum neste mundo.
[…]
Embora ultimamente esteja um pouco mais fácil alugar um quarto. Chamar as pessoas de “porcas lésbicas” só porque gostam do fato de SuleMio estarem juntas não passa de homofobia.
Não adianta tentar argumentar com eles, então desisti. A discriminação existe em todos, seja consciente ou inconsciente. Somos todos iguais nesse aspecto. Você não precisa se diminuir ou ter vergonha de gostar de yuri ou de relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo. Não há motivo algum para se envergonhar. Quero valorizar essa identidade, apoiar SuleMio com orgulho, e estar ao lado de outras pessoas que torcem por elas juntas. Dito isso, sou contra pessoas que tentam resumir SuleMio como um mero ícone homossexual. É inaceitável.”
Imagem: Reprodução/X
“Tem gente postando mentiras dizendo que quem falou um monte de m*rda foi o pessoal LGBT e as feministas. Quem repetiu comentários discriminatórios o tempo todo foi a extrema-direita na internet; os LGBTs são as vítimas. É por isso que o perfil oficial escreveu ‘comentários discriminatórios’. É imperdoável que tentem transferir a responsabilidade dessa forma tão covarde.”
O que se vê aqui é que, embora a empresa tenha finalmente tomado uma atitude em relação às brigas entre fãs, o momento escolhido foi oportuno para que a culpa recaísse sobre a comunidade LGBTQIAPN+.
Durante três anos, a companhia não apenas se omitiu diante de ataques homofóbicos, como também reforçou esse preconceito através da censura e do apagamento homoafetivo em suas redes sociais, ignorando inclusive as declarações do diretor Hiroshi Kobayashi (Kiznaiver, Spriggan 2022), que confirmou o matrimônio em uma das entrevistas para o quarto volume do Blu-ray da segunda temporada.
Imagem: Reprodução
O epílogo, que mostra o mundo três anos depois, foi planejado desde o início?
Kobayashi: Decidimos incluir um epílogo, mas a cronologia específica foi definida posteriormente. O final se passa após A Tempestade, onde Suletta e Miorine se casam e se tornam parceiras.
Um problema que vai além da internet
É importante destacar o impacto de The Witch from Mercury em termos de representatividade. Suletta é a primeira protagonista feminina em uma série de TV da franquia Gundam e também simboliza um avanço na representatividade LGBTQIAPN+ dentro de uma obra com grande peso na indústria dos animês.
Infelizmente, parece que preservar a “integridade” de um personagem fictício tem sido tratado como mais importante do que as próprias pessoas. É lamentável que a detentora dos direitos minimize um dos principais fatores responsáveis por esse sucesso global, que atraiu novos públicos, enquanto permanece omissa diante de ataques misóginos. Esse cenário se agrava no contexto atual, marcado pela falta de regulamentação eficaz da internet para conter esse tipo de discurso de ódio contra mulheres e minorias, um problema de escala global.
Embora este seja um artigo para um assunto superficial, são em coisas triviais como esta que as microagressões estão escondidas no dia a dia.
O texto presente neste artigo é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox. Reafirmamos, no entanto, nosso posicionamento contrário a qualquer forma de discriminação, incluindo manifestações de cunho étnico-racial, de gênero ou de orientação sexual.
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