Crítica | ‘Zona Fantasma’, de Junji Ito | Editora Pipoca e Nanquim

Crítica | ‘Zona Fantasma’, de Junji Ito | Editora Pipoca e Nanquim

É sempre interessante pensar em como autores de terror criam suas histórias. Afinal, não é raro supor que criar contos sobre acontecimentos macabros pode gerar algum tipo de desesperança com a vida real. Curiosamente, Junji Ito, considerado um dos mestres do horror japonês, vai de encontro com essa percepção. Quase sempre sorridente, e até fofo, em suas aparições públicas, o autor foca em despejar todo tipo de susto somente nas páginas de suas publicações, e não é diferente com Zona Fantasma.

Trazida ao Brasil pela editora Pipoca & Nanquim, essa coletânea reúne oito contos, publicados originalmente no Japão entre 2020 e 2022, que brincam com a percepção do leitor acerca do que é real e do que é sobrenatural, sempre com um ar daqueles “causos” macabros que ouvimos na pracinha de cidades pequenas. E todos, claro, também nos desafiam a pensar sobre os pequenos horrores das ações e emoções humanas.

Zona Fantasma, de Junji Ito

Se prepare para se deparar com páginas absurdamente assustadoras, e muito bem feitas | Zona Fantasma/Pipoca & Nanquim/Reprodução

 

O começo do mangá fala bastante sobre isso. Em “A Descida das Carpideiras”, Ito escreve sobre uma tristeza contagiante, capaz de fazer uma pessoa se “desfazer” em lágrimas, como uma alegoria a quando deixamos os sentimentos melancólicos tomarem conta de nossas vidas. Ao mesmo tempo, o choro é colocado como algo que pode trazer alívio para almas que já estão desgastadas. É uma ótima escolha de conto para iniciar a coletânea, já que dá o tom tanto do tema da publicação como um todo quanto apresenta a forma como Junji Ito escreve e desenha. Em apenas algumas páginas, ele cria uma trama instigante e apresenta ao leitor personagens carismáticos, com os quais é fácil se identificar (e se preocupar).

O mesmo sentimento se repete no terceiro conto, “Corrente de Espíritos em Aokigahara”. Aqui vemos um jovem que tem o desejo de morrer e, para isso, vai para uma floresta densa e com uma gruta estranha. O que ele encontra ali, no entanto, muda a percepção sobre o desejo de tirar a própria vida, e o faz sentir uma espécie de adrenalina que o alimenta, ao mesmo tempo em que lhe tira as forças. Esse tipo de conflito de sentimentos também é presente em toda a publicação, que mostra personagens mudando de percepção ao longo das histórias.

Também é interessante ler Junji Ito abordar temas um pouco diferentes dentro dos contos, como “Madona”, que mostra um colégio feminino religioso, em que uma personagem se sente “mais santa do que Deus”. O terror construído neste conto é mais psicológico do que visual, e o autor parece incluir algumas críticas à hipocrisia de líderes que usam a crença das pessoas em benefício próprio. Mais atual, impossível.

O traço esfumado para representar a poeira é destaque em um dos contos | Zona Fantasma/Pipoca & Nanquim/Reprodução

Poeira, éter e uma pitada de superstição

Talvez seja impressão desta que vos escreve, mas os primeiros três contos de Zona Fantasma possuem mais força narrativa do que os cinco seguintes, que seguem contando histórias fantásticas e macabras, mas com reviravoltas menos instigantes.

A partir de “Ao Toscanejar”, que brinca sobre como o sono se parece com a morte e pode ser um momento vulnerável, as tramas se resolvem mais rapidamente e com menos peso, ainda que sigam falando sobre os problemas da natureza humana.

Isso fica claro em “Soberano Demônio da Poeira”, que não chega a ser um conto ruim, mas é morno. Nele, o foco é no ostracismo atual de uma família de famosos, que já teve atores de grande renome. Aqui, o sentimento de ser “deixado de lado” pelo mundo é representado por uma onda de pó inacabável, que revela algo ainda mais obscuro sobre a história da família.

A construção geral do conto é satisfatória, mas tanto o clímax quanto a resolução não geram o sentimento de surpresa que a coletânea entregou aos leitores até então, fazendo com que a história pareça um pouco mais do mesmo, em vez de entregar um questionamento próprio. Isso também acontece com as três histórias que encerram a publicação, “Vila do Éter”, “Tio Ketanosuke” (que resgata os Bizarros Irmãos Hikizuri, já apresentados em outras histórias de Ito) e “Carapaças do Pântano Manju” — facilmente o mais fraco de todo o compilado.

De um jeito tragicômico, quase todos contos entregam um encerramento para os leitores | Zona Fantasma/Pipoca & Nanquim/Reprodução

 

Porém, ainda que tenha esses altos e baixos, Zona Fantasma é uma adição interessante à biblioteca de Junji Ito no Brasil. Até porque mesmo as histórias com menos peso revelam mais sobre o estilo do mangaká e como a escrita dele se comporta em tramas com menos peso narrativo. E também não há como negar que há um charme na forma em que cada conto começa com um personagem falando algo como “vocês não vão acreditar no que aconteceu comigo”.

Zona Fantasma termina com essa sensação de estarmos sentados em um banco de praça ao lado do mestre Ito, ouvindo todo tipo de atrocidade sobrenatural, incluindo um pouco de superstição. Nem todo causo é bom, mas o conjunto da experiência é, sem dúvidas, satisfatório.

 

Galeria de fotos

Confira no álbum abaixo alguns registros da edição nacional de Zona Fantasma pela Pipoca e Nanquim:

 

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Volume único (edição digital)

A edição física estava esgotada no momento de publicação deste texto.

Essa resenha foi feita com base na edição cedida como material de divulgação para a imprensa pela editora Pipoca & Nanquim, que disponibilizou o volume da obra ao JBox.


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