
Fazer adaptações nunca é uma tarefa fácil. Há quem reclame quando a obra fica parecida demais com o material de origem, e também muitas crÃticas quando o lançamento se distancia do que busca adaptar. Porém, vez ou outra, nos deparamos com um bom exemplo de como fazer essa transposição de mÃdias de forma satisfatória, e este é o caso do live-action de Blue Lock, dirigido por Yusuke Taki e lançado nos cinemas do Brasil em 10 de de setembro deste ano, pela Sato Company.
A trama é a mesma do mangá escrito por Muneyuki Kaneshiro e ilustrado por Yusuke Nomura. Após várias eliminações em Copas do Mundo (e a de 2026 ainda nem entrava nesse conta), a Associação de Futebol do Japão decidiu começar a iniciativa Blue Lock, um treinamento intensivo para formar um artilheiro “egoÃsta”, ou seja, alguém com sede de gols para fazer a seleção do paÃs finalmente deslanchar. Do outro lado dessa história está Yoichi Isagi (interpretado no filme por Fumiya Takahashi), um jovem que ficou frustrado após seu time de futebol da escola perder uma partida no último minuto — em uma jogada que ele iniciou, mas decidiu passar para um colega de equipe marcar.
Sem saber direito no que estava se metendo, Yoichi é convidado pela iniciativa Blue Lock e vai para o centro de treinamento entender sobre suas próprias capacidades e, se possÃvel, se tornar um grande artilheiro.

Vale a máxima de que: se todo mundo é atacante, ninguém é atacante? | Sato Company/Divulgação
Tanto no mangá quanto no animê e no live-action, Blue Lock brinca com a percepção de que o futebol jogado pelo Japão é “colaborativo” demais, e esse seria o motivo das inúmeras eliminações precoces. Por conta disso, a história pode parecer meio maluca, em um primeiro momento, especialmente para quem gosta de futebol. Como todos os convocados para o treinamento são atacantes, e o saldo de gols é uma parte importante para seguir em frente na seleção, o que vemos nas primeiras partidas é um aglomerado de moleques ansiosos tentando fazer um gol. Não há técnica, nem posições em campo, e isso é explicado dentro da história, mas é curioso como quem gosta do esporte pode se sentir meio deixado de lado em um primeiro momento.
Felizmente, o live-action entende rapidamente que, apesar de precisar desconstruir o que é futebol, as partidas são importantes para cativar o público, e as disputas mostradas em tela são bem filmadas e coreografadas, de forma até mais satisfatória do que na adaptação em animê. Mesmo quando as jogadas são dinâmicas, o talento de todos fica perceptÃvel, e a produção acerta em um aspecto de difÃcil equilÃbrio: dar o peso e a velocidade necessários para a cena, mas deixá-la clara o suficiente para que todos entendam o que está acontecendo. Sabe aquela sensação de ver vários acontecimentos amontoados em um filme de ação e não conseguir identificar cada movimento dos personagens? Isso não acontece aqui.
Além de bem filmado, o live-action de Blue Lock também se destaca em outros quesitos técnicos. A fotografia, por exemplo, marca bem as mudanças de ambiente, com cores mais quentes no começo da história do protagonista Yoichi, um tom já esperadamente azulado dentro do centro de treinamento, e até mudanças sutis quando outros personagens aparecem, como a cor branca que acompanha Nagi. Pode parecer algo óbvio fazer tais mudanças no ambiente, mas a verdade é que, quando bem utilizado, o óbvio não incomoda, e sim complementa a narrativa.
O mesmo pode ser dito da trilha sonora do filme, tanto das músicas incidentais quanto da música-tema, cantada pela Ado. As inserções ajudam a dar o tom das cenas, fazendo com que quem está assistindo se sinta aflito, ou até mesmo empolgado, acompanhando os sentimentos dos personagens em tela.
Ser ou não ser um egoÃsta?
O paralelo entre Yoichi e Nagi é um dos destaques da parte final do longa | Sato Company/Divulgação
Se o clima funciona na maior parte das cenas, é mérito também do elenco que está, em sua maioria, muito bem em seus respectivos papéis. Fumiya Takahashi às vezes parece um pouco velho demais para interpretar um jovem em época de ensino médio, mas compensa essa percepção quando abre um sorriso largo com uma pitada de ingenuidade, que nos faz gostar imediatamente de Yoichi.
Outro destaque importante é Masataka Kubota no papel de Jinpachi Ego, o técnico responsável pelos treinamentos da iniciativa Blue Lock. Com uma caracterização precisa, mas menos afetado do que na versão animê, o ator confere ao comandante um ar de mais respeito e menos maluquice, deixando que exista uma mÃstica ao redor de seus métodos, sem precisar de exageros para isso. De longe, uma das melhores escalações do filme.
O ponto mais baixo do elenco é para Koga Yudai (também conhecido como K, integrante do grupo &Team) como Nagi. Destaque no terço final do filme por sua grande habilidade com a bola, Nagi soa mais apagado do que deveria — mas vale a colher de chá pela dificuldade de imbuir emoções em um personagem que está constantemente com um ar blasé para tudo o que acontece ao redor.
Além de todos esses elementos, é importante ressaltar que o live-action tem outro grande acerto: é, por si só, um longa interessante de assistir. Para quem conhece a franquia, é a oportunidade de ver uma nova versão da trama, mais direta e menos enrolada do que o começo do animê. E, para quem for direto ao cinema, todos os elementos para entender a narrativa estão lá, e são desenvolvidos de uma forma coesa e instigante. Em poucas cenas, queremos saber o que vai acontecer com os personagens, e o que raios Jinpachi Ego está planejando.
Essa jornada traz, ainda, um dos pontos mais importantes da franquia Blue Lock: como o futebol (tradicional ou recriado) faz com que cada jovem descubra um pouco mais sobre si mesmo. Seja em um momento de tomada de decisão rápida, nas reações à traição de um amigo, ou até ao reconhecimento das próprias fraquezas sobre determinado assunto, Blue Lock insere o futebol como um catalisador da identidade que cada um está construindo em um momento tão importante da vida quanto a juventude.
Para além do esporte, Blue Lock também mostra o amadurecimento pessoal dos personagens | Sato Company/Divulgação
E assim, mantendo o que precisa ser mantido, mas enxugando certos exageros do material de origem, o live-action de Blue Lock é um dos lançamentos do universo de animês mais interessantes do ano, e que abre caminho para uma possÃvel sequência, ao terminar com um gancho e até cena pós-crédito. Agora é esperar que a produção faça o sucesso necessário para justificar um segundo filme, que mantenha a boa qualidade do primeiro.
O animê seriado de Blue Lock começou a ser lançado em outubro de 2022, assinado pelo estúdio 8-Bit. No Brasil, as duas temporadas estão nos catálogos da Netflix, HBO Max e Crunchyroll, que também conta com o filme Episódio Nagi. As duas temporadas também são exibidas no canal Adult Swim e o mangá, lançado desde agosto de 2018, chega ao paÃs pela Panini.
Vale lembrar que, este ano, a Associação de Futebol do Japão lançou um programa de formação de atletas no mundo real, inspirado na história de Blue Lock.
O texto presente é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site. A crÃtica foi feita de forma totalmente independente, em uma exibição comum de cinema, sem envolvimento de cabine de imprensa.
Siga e acompanhe as notÃcias do JBox também pelo Google News e em nosso grupo no Telegram.
from JBox https://ift.tt/P2ue6Xx
via CineLive365
Post a Comment