Crítica | Kaiju Girl Caramelise | 1ª temporada

Crítica | Kaiju Girl Caramelise | 1ª temporada

Se apaixonar é coisa de louco! Do nada você vê uma pessoa e passa a enxergar ela de um jeito diferente. Parece que está brilhando, irradiando. É como se começasse a tocar alguma música empolgante toda vez em que ela passa. A imagem dela fica na sua cabeça o dia todo. Tu dorme e acorda pensando nela. Parece que os dias ficam mais bonitos, que o sol fica mais quente, que a chuva fica menos incômoda, que as músicas ficam mais emocionantes. Os outros te olham e perguntam o porquê daquele sorriso bobo o dia todo.

E quando essa paixão é correspondida? Aí é bizarro! Começam a aparecer escamas pelo corpo. As unhas viram garras. Os dentes viram presas. Uma cauda espinhenta brota da sua coluna vertebral. Surge uma vontade louca de urrar com força, expelindo uma rajada de energia nuclear destrutiva. Você perde o controle, cresce dezenas de metros de altura e se transforma em um lagartão gigante com a capacidade de destruir cidades!

Okay, não é o caso de todo mundo. Na real, é só o da Kuroe Akaishi, a fofíssima protagonista de Kaiju Girl Caramelise, um dos animês mais doces, empolgantes, engraçados e cativantes desta Temporada de Verão. A trama é bem simples. Uma estudante do Ensino Médio nasceu com uma condição fantástica: toda vez em que seus sentimentos são extrapolados, partes de seu corpo se transformam em algo mais reptiliano. Então, ela cresceu reprimindo as próprias emoções e escondendo-se por baixo de camadas de roupas para não assustar os outros nem ser ostracizada por causa disso.

Só que aí chegou a adolescência e ela conheceu um moleque bem gatinho do colégio, o Arata Minami. Ele gosta dela, ela gosta dele, eles começam a sair e… bom, qual cenário melhor para uma ebulição de sentimentos do que um primeiro amor correspondido na adolescência? O resultado é que Kuroe fica tão excitada que se transforma no colossal kaiju Harugon, um monstrão assustador que toca o terror por onde passa.

Há mais por trás disso, é claro. É mostrado então que a mãe de Kuroe, Rinko Akaishi, é, na verdade, uma exploradora paleontóloga que viajou por vários locais até chegar a uma ilha misteriosa, onde encontrou uma ninhada com ovos de aparência esquisita. Um deles ela levou para casa. Quando o ovo chocou, nasceu Kuroe, que Rinko criou como uma criança normal. Mas ela é bem diferente. Beeeeem diferente.

Imagem do animê Kaiju Girl Caramelise com uma menina e um menino um ao lado do outro com várias cerejeiras floridas ao fundo

Imagem: LIDENFILMS/Reprodução

Kaiju Girl Caramelise é daqueles casos em que um animê é tão rico que permite várias interpretações. A mais fácil de seguir é a de que ele funciona como uma parábola para o despertar sexual feminino. Para aquele período de fim da infância e início do que será uma vida adulta. Kuroe está experimentando tantas sensações novas que, literalmente, vira um monstro por causa disso. Em várias passagens do animê, são mostrados momentos em que ela se sente desconfortável com o próprio corpo, pois não consegue controlar as mudanças que acontecem nele.

Aí, ela prefere esconder, se cobrir, se reprimir para passar despercebida dos olhares julgadores. Só que isso não funciona. Vai naquilo de que, quanto mais esforço você faz para segurar, com mais força vai sair. De modo que ela, aparentemente, só consegue se controlar mesmo mais para o fim da temporada, quando resolve abraçar seu lado kaiju monstruoso e aceitar quem é, com a certeza de que os outros também a aceitarão.

E esse receio de ser rejeitado por ser diferente pode servir como uma segunda interpretação da história. Não de uma maneira óbvia, mas jogando elementos através do subtexto que podem ser entendidos assim. Não é o caso da protagonista, mas dá para traçar um paralelo com as experiências de várias pessoas LGBTQ+ deste lado da tela, que precisam reprimir quem são de verdade, se disfarçar para passar ilesas, para sobreviver até mesmo em sociedades homofóbicas e transfóbicas. Kuroe literalmente vira um monstro por conta de seus sentimentos, e é dessa forma que muitas pessoas enxergam outras simplesmente por serem quem são, quem nasceram para ser. É uma metáfora fofa do animê, mas que reverbera em muita coisa quando colocada em discussão.

Isso se estende para algumas das personagens coadjuvantes de alívio cômico. Por exemplo, a gyaru Raimu Kouno carrega uma história triste. Desde criança, as pessoas apontam que ela tem um rosto descrito no animê como “de gorila”, esteticamente parecido com o de neandertais, que assusta os outros. Até a voz dela tem um tom mais grave. Quando mais nova, ela se apaixonou por um menino, mas foi rejeitada (e rechaçada) por sua aparência. Depois disso, descobriu como usar maquiagens, que funcionam nela de maneira mágica, mudando totalmente o formato de seu rosto e, inclusive, elevando o tom de sua voz e deixando-a mais feminina. Deu para pescar, né?

Imagem: LIDENFILMS/Reprodução

Outra personagem, a maravilhosa Manatsu Tomosato, é uma ricaça fora da casinha. Ela cresceu com um gosto diferente do de outras crianças, adorando filmes de kaiju. Sempre sonhou em estar rodeada por vários deles. Então, quando Harugon surge pela primeira vez, ela percebe que está apaixonada pelo monstrão! E passa a fazer de tudo para ser notada pelo lagartão, que ela declara aos quatro ventos ser o amor de sua vida, rendendo cenas hilárias envolvendo helicópteros, rituais de invocação, cosplays, chantagens e tramoias ao lado de seus dois assistentes gêmeos, carecas e sarados. É um tipo de amor que ninguém espera e que é visto como bizarro por muitos ao redor. Deu pra pescar essa também, né?

E tudo isso é mostrado de um jeito bem leve, com a comédia e o romance em primeiro plano, sendo aquele tipo de animê colorido que a gente assiste para se divertir com as situações e se impressionar com o esmero extra colocado na animação nos momentos em que Harugon está em tela. Mais para o fim da temporada, há uma cena de batalha entre ele e mais um kaiju que é tão empolgante quanto as batalhas de filmes mais recentes desse tipo.

Kaiju Girl Caramelise pega aquela fase absolutamente caótica em que a gente começa a descobrir o próprio corpo, os próprios desejos e a forma como o mundo nos enxerga e transforma tudo em uma adolescente que vira um lagarto gigante quando fica apaixonada. É uma ideia divertida e esperta, porque por baixo de toda a fofura, das piadas e dos cenários destruídos, existe uma personagem tentando entender quem é e como pode existir sem precisar se esconder.

Ele fala sobre vergonha, desejo, rejeição, aceitação e a vontade de ser amado, algo que conversa com diferentes pessoas de diferentes públicos. A melhor maneira de falar sobre essas coisas é colocar uma garota metaleira apaixonada numa escala que pode destruir uma cidade inteira? Aparentemente, sim.

Destrua os data centers de LLM, Harugon! Salve o mundo das IAs generativas pelo poder do amor! <3

Kaiju Girl Caramelise é um animê produzido pelo estúdio LIDENFILMS, com 12 episódios, direção de Teruyuki Oomine e roteiro de Yuniko Ayana. Ele adapta o mangá escrito por Spica Aoki, publicado na revista Monthly Comic Alive desde 2018, ainda em andamento, já com 10 volumes fechados.

O desenho está disponível aqui no Brasil através da Crunchyroll, com opção legendada e a dublada feita pelo estúdio Som de Vera Cruz.


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